terça-feira, 24 de Novembro de 2009

Outra viagem...

Outra viagem... é o título da exposição que Luis Duarte apresenta no Auditório Augusto Cabrita, no Barreiro. Patente até 31 de Dezembro, Outra Viagem... oferece-nos um conjunto de imagens onde o retrato constitui o ponto alto do trabalho de Luis Duarte. São expressões e momentos onde estão presentes olhares fortes de intimidade (Bali 05) ou onde o lado humano do fotógrafo se conjuga com o momento e com os intervenientes (Udaipur 06). Luis Duarte é claramente um fotógrafo de pessoas, interagindo com elas e registando momentos que se exprimem em fracções de segundo.

O olhar sempre foi algo que atraíu os artistas. A preocupação com a expressividade ou não dos olhos foi motivo de caminhos distintos na pintura ou na escultura na Antiguidade clássica, veja-se como exemplo as pinturas nos sarcófagos egípcios ou a escultura da Grécia e da Roma antigas. Em épocas mais recentes, por exemplo na pintura renascentista, a importância do olhar assumiu-se como crucial na expressividade do artista, comportando-se como o espelho da alma do retratado. Igualmente importante na fotografia, Luís Duarte consegue dar-nos momentos de uma intensidade deslumbrante, onde os retratados parecem falar connosco.

Não tão bem conseguidas estão as paisagens e lugares citadinos que o fotógrafo captou. São imagens onde transparece algum formalismo, mesmo que recorrendo a alguns planos inclinados. São imagens datadas estéticamente, vistas nos trabalhos em preto e branco de alguns jovens fotógrafos de meados da década de noventa e que por vezes fazem lembrar alguma ingenuídade estética. No entanto, não deixa de ser interessante a presença de alguma ironia, como quando acontece serem colocados lado a lado uma bandeira turca (Sakkikent 08) e um semáforo (Nova Iorque 06) ou ainda a imagem do cartaz (Mostar 07).

Bem conseguida é a interpretação da luz, por vezes triste, usando um baixo contraste na impressão, que à primeira vista nos pode parecer uma impressão menos correcta, mas que de facto não é, assumindo-se também como uma componente das opções estéticas do autor.

De uma visão geral do trabalho transparece uma atitude de reflexão da imagem. É um autor que pensa a fotografia fugindo de atalhos fáceis. Por isso, usando uma frase do autor que diz que “de cada vez que partimos, voltamos diferentes...”, acreditamos que “após cada exposição somos fotógrafos diferentes...

sexta-feira, 20 de Novembro de 2009

Uma imagem, um autor - Vera Marmelo

Durante os últimos anos tenho insistido num tipo de fotografia. Querendo evoluir noutras direcções obrigo-me a ver imagens e a fotografar o que na maioria das vezes não me chamaria à atenção. Assumo finalmente a força que (certas) imagens urbanas podem ter. Os elementos urbanos que me são contemporâneos incomodavam-me, falo de automóveis, candeeiros, uma parede grafitada, agora admito que com cuidado tudo se pode encaixar numa fotografia. E nesta imagem sinto que, mesmo com os tais automóveis e candeeiros que inicialmente me distraíam, há ordem e silêncio. Os elementos que achava estranhos em fotografias ajudam-me agora a criar equilíbrio e a evitar que a fotografia seja demasiado asséptica, tornando-a real. O espaço livre de estrada, a curva na saída dá-me a sensação de ordem. O silêncio surge devido à ausência de movimento e à quase inexistência de presença humana.

sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

Cores das Nossas Memórias

No Governo Civil de Lisboa está patente a exposição Cores das Nossas Memórias, de Luis Pavão. O tema não é novo – as lojas da baixa lisboeta, mas é a primeira vez que o vejo bem fotografado. Na realidade se existe algo que transpira de todas as imagens é o extraordinário domínio técnico do fotógrafo, sustentado não apenas nos muitos anos de experiência, mas também e principalmente, no conhecimento técnico. O controle rigoroso da temperatura de cor alia-se neste trabalho a uma estética formal, mas por isso provocadora, que usa a cor de uma forma moderna e com toque de naturalidade cinematográfica.

Apesar de identificada no exterior do edifício, quando transpomos a porta do Governo Civil somos informados da localização das contra-ordenações. Na dúvida, subimos a escada e deparamo-nos com a secção de passaportes. Um olhar para o lado contrário e sabemos que é ali que se situa o gabinete de secretariado e do Governador Civil. Só por acaso, descobrimos o local da exposição quando vislumbramos algumas molduras. Não faria mal a existência de um qualquer cartaz ou placa a indicar a exposição.

Apesar da exiguidade do espaço, a dimensão das imagens e, especialmente, a sua distribuição, permite uma leitura que leva o visitante a não achar poucas as imagens presentes. Ao mesmo tempo há um aproveitamento inteligente da luz natural que valoriza muito a ambiência da sala. Uma palavra positiva também para o cuidado posto na montagem das fotografias nas molduras, evitando o contacto directo entre o papel e o vidro. Estes cuidados só são prejudicados pela falta de algumas das legendas, sinónimo de que caíram e que não houve o cuidado de fazer alguma manutenção da exposição.

É, pois, uma exposição fácil de ver pela sua dimensão, mas necessária sempre que precisamos de limpar o espírito e ver imagens bem executadas tecnicamente e dotadas de uma estética onde a paixão do fotografo está presente. Ao mesmo tempo lembra-nos uma cidade humanizada que aos poucos desaparece ou se esconde atrás da omnipresente modernidade. É o coração de uma cidade pela qual, há muito, Luis Pavão se apaixonou e que ela retribui dando-lhe momentos espantosos e irrepetíveis. Fica no centro da cidade, não há desculpa para não ir ver.

segunda-feira, 2 de Novembro de 2009

450

A Universidade de Évora celebra 450 anos de história no ensino em Portugal. Para assinalar esta ocasião, a Kameraphoto, a convite da reitoria da UE, desenvolveu um amplo projecto de fotografia e vídeo. Ao longo de um ano, seguiu de perto as actividades da universidade no seu espaço próprio. Acompanhou docentes, funcionários e alunos no seu trabalho, nas suas rotinas diárias, no ambiente e na comunidade em que se integram. O resultado do projecto 450, a apresentar a partir de 1 de Novembro no Palácio da Inquisição, terá várias vertentes, desde logo a inauguração de uma exposição, composta por 114 imagens e a projecção do filme A Rede, da autoria de Rui Xavier, membro do colectivo, com duração de 16 minutos.

Esta será a última exposição no Palácio da Inquisição, sala de exposição da Fundação Eugénio de Almeida, que dará lugar ao futuro Museu de Arte Contemporânea de Évora. O projecto 450 contará igualmente com uma página na internet, no qual se poderá visitar galerias com o trabalho realizado pelos fotógrafos da Kameraphoto.

As 250 fotografias seleccionadas pelos fotógrafos da Kameraphoto constituem um testemunho da vida real; o que não faz dele um produto promocional da Universidade segundo o conceito dos catálogos publicitários. Com efeito, a Universidade é aqui retratada na sua intimidade, com as mazelas que o tempo imprime nos edifícios, sem “maquilhagem nem peruca”; com a humanidade daqueles que nela trabalham, ensinando, organizando, estudando e desabrochando para a cidadania, nas suas múltiplas facetas.

Neste projecto podem ser vistos trabalhos de Alexandre Almeida, Augusto Brázio, Céu Guarda, Guillaume Pazat, João Pina, Jordi Burch, Martim Ramos, Nelson D´Aires, Pauliana Valente Pimentel, Pedro Letria, Sandra Rocha e Valter Vinagre.

Texto Kamaraphoto

terça-feira, 27 de Outubro de 2009

Paisagens Domésticas

Bert Teunissen nasceu na Holanda em 1959, tendo iniciado a sua carreira de fotógrafo em 1984, em Amsterdão, como assistente de Brian Morris. Em 1987 torna-se independente realizando sobretudo trabalhos de publicidade para diversas agências e revistas. Será a partir de 1996 que dirige o seu percurso para uma carreira autoral. Nesse mesmo ano realiza a série intitulada Listen to your eyes que é apresentada no festival de Naarden e mais tarde publicada em livro. Seguem-se outros trabalhos em que se destaca “Me and My Christmas Tree” que teve um trajecto itinerante nos Estados Unidos. Mais recentemente tem vindo a desenvolver o projecto Domestic Landscapes cujas imagens relativas a Portugal foram pela primeira vez apresentadas no Museu da Imagem. Neste projecto Teunissen percorre o interior do país, conseguindo uma relação de forte cumplicidade com alguns habitantes, o que lhe permite invadir a sua intimidade e aí fotografá-los, de forma natural. Este trabalho representa também um convite ao observador para se deleitar com a riqueza dos cenários e objectos aí representados. Utilizando apenas a luminosidade disponível obtém imagens de grande rigor estético e, simultaneamente, a simplicidade de cada ambiente revela-nos um mundo cada vez mais em extinção. Este fantástico conjunto de imagens apresenta-nos um retrato antropológico de imensa riqueza iconográfica e social. Cada composição é cuidadosamente estudada e a espera da luz certa, torna cada fotografia num palco cheio de dramatismo e nobreza.

Rui Prata, Director do Museu da Imagem de Braga / Texto cedido pela Kgaleria

Até 31 de Outubro, na Kgaleria, Rua da Vinha 43 A, em Lisboa


segunda-feira, 26 de Outubro de 2009

Jam Session

No Auditório Municipal Augusto Cabrita, no Barreiro, está presente Jam Session de Nica Paixão. É uma exposição pequena, mas interessante e que vale a pena. Ainda mostra as ingenuidades de quem está a começar, nomeadamente num ritmo expositivo com alguma monotonia, mas demonsta cuidado, respeito pelo público, paixão pela fotografia e responsabilidade em expôr. Realce para a boa impressão, para a iluminação do espaço e até para a encenação visual, num espaço onde a côr ajuda a realçar as imagens.

A leitura do texto que acompanha a exposição ajuda-nos a compreender a exposição, sendo notável a relação entre as imagens e o texto do catálogo, um aspecto a ter em atenção por parte de muitos artistas que expõem. O texto é da autoria de José Oliveira, formador em fotografia e comissário de algumas exposições. Pela sua qualidade, e com a devida autorização, transcrevemo-lo aqui.

“O retrato em fotografia é uma das suas formas mais recorrentes e diversas.

A seriação de August Sander, a plasticidade da iluminação em Helmar Lerski, a dinâmica das múltiplas exposições de Fernando Lemos, ou a desconstrução da identidade em Thomas Ruff, são alguns dos eixos de desenvolvimento que demonstram o vasto campo da fotografia de retrato.

No caso do presente trabalho as questôes da identidade estao obviamente presentes, mas vão um pouco mais longe, porque se trata também da cumpllcidade, do trabalho, da profissão, do fazer música - no caso, o Jazz o que torna tudo mais complexo.

Como juntar dois instrumentos complementares, o piano e o contrabaixo, num dueto de imagens? Como estabelecer esse diálogo? Como perceber as características diferentes dos dois instrumentos? Como estabelecer a relação músico-instrumento? Como juntar tudo isso num todo coerente?

A solução encontrada pela fotógrafa foi a de estabelecer duas séries distintas, uma de dipticos (piano) e outra de imagens "solo" (contrabaixo).

A riqueza tímbrica de um piano, a complexidade do instrumento, a própria dimensão e presença fisica, obrigava a um certo destaque em termos de imagem, mas isso nao poderia significar distanciamento em relação ao músico - daí os dípticos - que mantêm essa relacão de proximidade.

Por outro lado o contrabaixo envolve uma relação demasiado íntima com o instrumento, que é literalmente abraçado pelo músico. Este encontro e proximidade não se compadecia com dípticos, e a solução de imagens "solo" era a (mica possível neste caso).

Deste modo, o conjunto de imagens apresentado abre com um enunciado de desconstruçao, nos dípticos, para passar a uma sublimação nos "solos". Uma figura da música de Jazz em que, aparentemente, um dos instrumentos gera um desequilíbrio necessário à construçào de uma frase musical complementado pelo outro.

É importante notar que é a fotógrafa que agora se assume como compositora dessa frase musical, gerando os desequilíbrios na primeira série, para, na segunda, participar intensamente no momento da criação quase anulando~se pela intensa proximidade, e deixando ao instrumentista a capacidade de interpretar livremente essa cumplicidade na procura de um reequilibrio.

Esta abordagem particular da fotógrafa só pode ser compreendida na base de uma elevada sensibilidade musical, de uma enorme cumplicidade com os músicos, e de um trabalho intenso na área da fotografia e da cultura visual.”

quinta-feira, 15 de Outubro de 2009

Todos - caminhada de culturas

Durante mais alguns dias, até dia 23, pode ainda ver no Arquivo Fotográfico de Lisboa, Todos – caminhada de culturas, um projecto social e cultural que originou um registo fotográfico deveras interessante. A organização convidou Georges Dussaud para um atelier fotográfico com o formato de residência artística, ao qual se juntaram posteriormente Luis Pavão, Luisa Ferreira, Camilla Watson e Carlos Morganho. O resultado pode ser visto não apenas no Arquivo Fotográfico, mas também em algumas fachadas do Martim Moniz, conferindo uma beleza muito especial àquele espaço.

Ligada à organização, Madalena Vitorino, dizia há tempos ao Expresso, que todo o projecto tem a ver com a ideia de mostrar o que as pessoas não querem ver, consequência de ser uma zona difícil onde a prostituição e a toxicodependência convivem paredes meias com as lojas dos mais variados produtos e com pessoas de todas as idades e culturas. Por isso não é de admirar o ar de respeito pelas pessoas que se respira na exposição, um ar justificado pela forma de fotografar, pelos comprometimentos que se advinham, pelos momentos do disparo. Aliás, ao olharmos para as imagens de Dussaud não podemos deixar de nos recordar de alguns dos momentos que fizeram a glória da Fotografia Humanista na Europa do pós-guerra. Georges Dussaud mostra-nos a intimidade das pessoas sem as expôr excessivamente, mostra-nos a beleza de cada um num particularismo tocante. O vendedor de flores no arraial, a mãe indiana com as duas filhas ou a senhora com o gato são belas, de gente bonita, quase que arrisco, de gente por quem o fotógrafo se apaixonou.

Luís Pavão mostra-se perfeitamente integrado nos locais, ou não fosse ele o autor de Tabernas de Lisboa ou do registo sobre o jogo da laranjinha. Ao olhar para aquelas imagens vêem-nos à memória aqueles dois trabalhos, ainda que estas imagens sejam dotadas de uma maior erudição estética e compositiva fruto dos anos, mantendo, no entanto, a mesma proximidade e relação com as pessoas. Disso são exemplo as imagens feitas nas casas de fado da Mouraria.

Luísa Ferreira parece-nos hesitante pelos vários formatos adoptados, talvez numa procura de novos caminhos. Nota-se, nas suas imagens, uma visão mais fotojornalística dos espaços e das pessoas, sendo nós levados a uma Lisboa que por vezes não reparamos quando andamos por ruas e bairros mais modernos. Exemplo disso é a excelente imagem das indianas que atravessam a rua, uma imagem que tem tudo para ser considerada uma grande fotografia:- enquadramento, composição, momento certo, ambiente e luz adequada, ao mesmo tempo que nos gera sentimentos que só uma grande imagem consegue.

Camilla Watson olha para os locais não pelos seus objectos mas pela sua luz. É excelente a sua interpretação da luz, pena só alguma incoerência temática que, apesar disso, não ofusca algumas excelentes imagens como a das escadinhas à noite ou a miúda a ler nas escadaria. Já após vermos as imagens de Carlos Morganho tomámos conhecimento do seu projecto de auto-retratos, onde o fotógrafo convidou os residentes da Mouraria a transformarem-se em fotógrafos de si próprios. Curiosamente a valorização da pessoa transparece nas suas imagens ao centrar-se nas pessoas e nas atitudes. Nota menos boa para a impressão fotográfica que destoa do resto da exposição.

No primeiro andar podem ser vistas actuais e antigas imagens do bairro, acompanhadas por música de Carlos Paredes. Que pena as imagens da galeria principal também não poderem ser fruídas ao som de Paredes. Decerto ganhariam outra vida. Ao ver as imagens da década de cinquenta do século XX, ou anteriores, ficamos com pena da beleza incrível da zona, que se perdeu pelo massacre arquitectónico a que foi submetida ao longo dos anos. O velho Apolo, a vida das ruas, os quiosques e tantos outros aspectos tornam aqueles momentos fantásticos, num exercício de identificação com os espaços de hoje. São também um exemplo de como uma exposição clássica pode ser complementada com outros meios, conferindo-lhe dinamismo e informação suplementar.

Diz o texto de apresentação que o património representado será guardado no Arquivo como memória da História do bairro. É um extraordinário serviço que o Arquivo presta a Lisboa.

domingo, 11 de Outubro de 2009

Um novo blog de fotografia

Está em movimentodeexpressaofotografica.wordpress.com/ e é o blog de fotografia do MEF – Movimento de Expressão Fotográfica. Apostamos que será um blog de referência sob o ponto de vista qualitativo, ou já não tivesse o MEF dado provas de procurar mostrar-nos uma fotografia com qualidade, longe dos clichés que são tão comuns.

Recorde-se que o MEF pretende, com as suas actividades, criar uma plataforma de modo a que os seus associados possam usufruir de oportunidades de expor e divulgar os seus trabalhos. Por outro lado, através das suas iniciativas, o MEF, busca que todos os cidadãos, disponham das mesmas oportunidades, caminhando assim para um objectivo mais ambicioso e alargado de democratizar a arte, especificamente a fotografia. Acresce ainda que o MEF tem vindo nos últimos anos a desenvolver um notável trabalho ao nível da formação e daí estar envolvido em projectos com instituições e associações ligadas à área da acção social, que compreendem acções de formação visando públicos que por norma tendem a não usufruir das mesmas oportunidades que o cidadão comum.

quinta-feira, 17 de Setembro de 2009

Adegas - um olhar diferente


Se tiver alguns momentos livres e estiver na zona de Palmela pode, até sábado dia 19, visitar a exposição Adegas – um olhar diferente, presente na galeria da Biblioteca Municipal e da autoria dos fotógrafos Ana Carmo, José Carlos Nero, Mário Nogueira e Mónica Martins, do colectivo Projecto f4. www.projectof4.com/

É um interessante trabalho de levantamento fotográfico das adegas da região de Palmela, com a particularidade, assumida pelos autores, de não ser uma visão turística do tema, mas antes de um registo de ambientes que transmitem sensações pela luz e pelos objectos. É um projecto conseguido, ainda que ressaltem algumas fragilidades e a mais evidente é a predominância, talvez excessiva, de pequenos espaços e pormenores onde os autores se refugiaram. É uma solução fácil que, com poucas excepções deixando de fora os grandes espaços, mascara o patamar estético dos autores, independentemente de qual ele seja.

A primeira ideia que nos salta á vista é de que esta exposição é um trabalho sério e juntaria a esta classificação uma outra, a de um trabalho dedicado e muito sentido. É um trabalho que nos chama à atenção para a beleza das pequenas coisas, que tem olhares cuidados, onde está presente uma execução técnica rigorosa, traída em alguns casos pela irregularidade da impressão em papel. Um trabalho que talvez seja um exemplo para muitos fotógrafos e muitos outros trabalhos deste género a serem realizados.

Um dos aspectos interessantes desta exposição é a extraordinária conjugação estética entre todos os autores. De cada um, há que referir os ambientes bem conseguidos de Mónica Martins (Palmela 36, Venâncio Costa Lima 25, José Maria da Fonseca 32), onde a impressão laboratorial pode melhorar (Venâncio Costa Lima 25 e 26, José Maria da Fonseca 35). Talvez as irregularidades no campo laboratorial, eventualmente se devam às diferentes películas utilizadas, o que num projecto fotográfico é um erro. A película é algo que se define previamente em função do objecto final pretendido (grão, contraste, gama de tons, etc.) e que dá corpo e coerência técnica ao trabalho. Talvez também deva fugir de alguns formalismos mais pobres (Palmela 27 e 28) e se concentrar mais na beleza dos espaços que consegue captar (Palmela 36). Quanto a José Carlos Nero há que destacar o trabalho de luz e a excelente impressão, que traduz uma forma de olhar ponderada, não se dispersando no olhar e concentrando-se em ângulos reduzidos, como se a máquina fosse uma extensão do olhar, o que se vê na espectacularidade lumínica de algumas imagens. Diferente, porque mais formal, é o trabalho de Mário Nogueira, eventualmente fruto do grande formato (Palmela 16, Sivipa 20 ou Ermelinda Freitas 21), algo que nos faz lembrar lembrar a fotografia alemã da segunda metade do século XX. Destaque também para a visão alargada de Ana Carmo, uma autora que ainda que opte por soluções repetitivas (Palmela 39 e 40), parece ainda um pouco confusa nas suas opções estéticas, como que à procura de um caminho. Mas é alguém que se advinha poder vir a trilhar no futuro outros caminhos estéticos mais consistentes.

Um capítulo onde esta exposição falha é na sua apresentação visual. Ainda que com um painel de entrada que visualmente dá algum dinamismo, a forma como o tema foi abordado e especialmente a montagem, sublinham uma monotonia que prejudica todo o projecto. Compreendo a forma como as várias adegas foram agrupadas, nem sempre bem conseguida por causa dos formatos originais, mas não posso aceitar a montagem em linha, fotografia atrás de fotografia, como se fazia há muitos anos atrás, numa sala onde a iluminação indirecta também é monótona e com falta de vida. Talvez com outras imagens e em outra sala isso fosse o adequado, ali dá um ar de monotonia exacerbada e de algo dejá vu. Porque não jogar com imagens maiores a abrir cada adega ou a quebrar linhas de leitura? Porque não ter imagens que se possam montar em pares, ou em grupos, até porque os diferentes formatos assim o ajudariam? Ou seja, porque não dar um ritmo à exposição. Isso cativa o visitante e é importante para que uma exposição não seja um somatório de imagens.

Por último, o horrível livro de opiniões que muitos autores teimam em colocar nas exposições. Para quê? Para lerem baboseiras que em nada os ajudam, talvez. Um autor quando expõe, expõe-se no seu patamar técnico e estético. Mais nada. Se tiver que pedir opiniões, pede individual e selectivamente. Não vale a pena coleccionar opiniões generalistas, que pouco mais vão para além do “gostei muito” e da “exposição fantástica", num atestado de auto-redução da sua condição de artista.

quarta-feira, 16 de Setembro de 2009

Interacções: para lá das fronteiras

A OrchestrUtopica dedica a programação da próxima temporada à ideia de interacção. Sem dúvida uma das grandes tendências das artes e da música contemporâneas, a interacção é hoje potenciada pela emergência das plataformas digitais: cruzamentos e ligações mais puras ou mais impuras, experiências de contaminação, de explosão de limites e de fronteiras entre artes, revelação de correspondências, de interpenetrações de linguagens e de artes. Experiências que correspondem, afinal, a interrogações sobre o futuro.

Transfronteiras é uma proposta de concerto visual em que a OrchestrUtopica continua a questionar as limitações do formato dominante da recepção musical (o concerto) e a explorar novas possibilidades. A famosa ideia das correspondências de Baudelaire enunciada no século XIX não é estranha aos conceitos de convergência e integração que a história das artes desde aí não cessou de revelar – com epifenómenos historicamente conhecidos (Wagner, Cocteau, entre outros). As artes visuais neste campo têm revelado uma grande agilidade e, por isso, este concerto propõe esse encontro: entre a obra e o mundo imagético do artista Luís Campos e a música contemporânea, num acontecimento único.

dia 17 às 21.30 na Culturgest
texto Culturgest, imagem Luis Campos

segunda-feira, 7 de Setembro de 2009

O sentir das imagens

Muito já se escreveu sobre a comunicação fotógrafo/público num espaço de exposições. Há quem defenda que o autor deve estar atento às reacções do público, sabendo com isso se a sua mensagem chegou intacta, e há quem defenda que o artista deve ignorar por completo o público, para não se auto-limitar no processo criativo. Na arte estas duas posições fazem escola, e se isso é verdade nos seus diversos domínios, desde a pintura ao cinema e ao vídeo, também o é na fotografia. Deve a mensagem criada pelo emissor (artista) ser a mesma que chega ao receptor (público), havendo com isso uma preocupação do artista em chegar a público?

Independentemente desta questão, que tem dividido e continuará a dividir todos os intervenientes na criação e usufruto do objecto artístico, existe algo em que todos estão de acordo:- quem vê precisa de sentir algo face a uma obra artística. Mais do que o redutor gosto ou não gosto com que muitas imagens fotográficas são brindadas, como se o gosto de cada um constituisse um selo que qualidade, é importante que se sinta algo quando se olha para uma imagem. É certo que as sensações que uma mesma imagem desperta em diferentes pessoas poderá, em caso extremo, gerar tantas e diferentes sensações quantas pessoas a vejam. Mas o importante não é gerar a mesma mensagem junto do receptor, o importante é que tenha a capacidade de gerar sensações. Por isso muitas das imagens vazias de conteúdo, ou que apenas se baseiam na côr ou em tecnicismos exacerbados, pouco valor artístico geram. Por isso muitos fotógrafos que circulam em certos sites e fóruns, carregados de filtros, fazendo HDR’s por tudo e por nada, preocupados com o último grito da tecnologia, ficam por vezes confusos com o facto das suas imagens não ultrapassarem a barreira da internet, mesmo que os comentários sejam sempre cinco estrelas, lindas fotografias ou cores fantásticas. É que a fotografia é mais do que técnica. É expressividade. A técnica é apenas uma ferramenta para proporcionar o usufruto de um objecto que é a obra artística. A técnica deve ser dominada para que não se perca a oportunidade, não é o objectivo final.

Por outro lado, este “sentir do coração” deve ser educado em todos nós. O consumo de imagens é tão grande que nos leva a fazê-lo de uma forma superficial. Temos de ganhar a capacidade de parar em frente a uma imagem, sentir e só depois olhar para a composição e para os objectos que a compõem. Quando, face a uma imagem, apenas observamos os objectos e nada mais, passando de imadiato a outra e mais outra, podemos estar a ver fotografias, podemos estar a observar os locais e os objectos, mas de certeza que não estamos a ver a fotografia enquanto obra de arte. É esse sentir que nos permite compreender o ambiente de um momento, como se nos transportassem para outro tempo e outro lugar, ainda que sujeitos a factores culturais e psicológicos muito pessoais. Mas a magia de uma obra de arte é isso, e isso é aprender a ver.

sexta-feira, 4 de Setembro de 2009

Uma imagem, um autor - João Paulo Barrinha


Esta imagem pertence a uma série que está ainda no início. Com ela, pretendo pegar em referências de imagens tipo postal ilustrado (neste caso, a casinha bonitinha com janelinha típica) e desconstruí-las. Resolvi chamar a esta série colecção de anti-postais ilustrados, precisamente porque, além das referências à imagem tipo postal, pretendo que a série se venha a desenvolver ao sabor da vida, como uma verdadeira colecção de imagens que me vão surgindo, quais objectos encontrados ao acaso.

A história desta imagem:- há algum tempo que o contraste entre o ar abandonado e ao mesmo tempo arranjadinho desta casa, me estava a chamar a atenção. Há aqui um jogo de elementos contraditórios que há muito exploro em trabalhos meus, daí o meu interesse. Até que, certa vez, a resolvi fotografar ainda sem ter uma ideia completamente formada acerca do sentido que pretendia dar às imagens... Esse mesmo sentido surgiu-me só depois, com uma outra imagem que me reportou ao famoso
cliché das silhuetas ao pôr-do-sol, imagem essa que passou a ser a primeira da minha "colecção". Pouco tempo depois dessas primeiras fotografias, um grafiteiro (ao qual deixo aqui o meu agradecimento) compreendendo brilhantemente o que aquela parede lhe "pedia", resolveu inscrever-lhe o seu estado-de-alma, acabando assim, por me proporcionar uma parte importante da matéria-prima para realizar esta segunda série de imagens... Finalmente, e no caso desta imagem em particular, quando estava a fotografar apareceu um casal de turistas que me ajudou a criar o moment décisif.

segunda-feira, 17 de Agosto de 2009

Mercados com Rosto


Designa-se de mercados com rosto a exposição de Nicolau Wallenstein, presente no Centro Municipal de Cultura, em Ponta Delgada. É uma exposição interessante nas suas intenções e em alguns apontamentos, mas com alguns desequilibrios, demonstrativos de um percurso que o autor está percorrer superando a algumas fragilidades técnicas e estéticas. 

Em primeiro lugar há que louvar o sentido de projecto que o autor apresenta, com uma ideia de conjunto já com alguma reflexão, o que para uma primeira apresentação pública é de louvar. Juntemos-lhe ainda um outro aspecto positivo que reside no facto dos mercados não se restringirem ao que normalmente é visível para a maioria dos clientes, há armazéns, corredores nas traseiras, há a noite. É um mundo que nos surge para além do óbvio. No entanto, primeiro contra, como projecto parece-nos que merecia ser mais aprofundado, com situações mais variadas e inesperadas, que só o tempo proporciona. Viemos a confirmar, posteriormente, que o projecto se concretizou num espaço de tempo curto que não permite uma maior maturação estética. Apesar da boa utilização da luz pelo fotógrafo, onde se inclui um razoável domínio técnico da medição de luz, mesmo em situações difíceis como no caso de algumas altas luzes pontuais, a impressão laboratorial é desastrosa, originando fotografias com uma luz plana, sem vida e sem planos de profundidade. Conta-se com a ajuda da iluminação da sala, que disfarça a impressão e a plastificação (?) mate, desnecessária tecnicamente, prejudicial esteticamente. Aliás discordamos da apresentação das imagens sobre kapaline, normalmente uma opção mais adequada a imagens estéticamente menos formais. O formalismo adoptado era mais compatível com um formato menor, com recurso a moldura, que obrigasse o visitante a aproximar-se e com isso se tornasse mais íntimista. Opções que até seriam compatíveis com a solução apresentada, com uma apresentação mista, com imagens de maior dimensão, quando estéticamente mais arrojadas. Tal traria vantagens também no ritmo da exposição e evitaria que quando se observa uma das imagens não existisse a interferência visual da imagem do lado.

O tema, ainda que não inteiramente original, é interessante. Com ele o autor consegue alguns excelentes registos, como as mulheres do peixe (foto 4), ou dos bolos (foto 15) que, apesar disso, o fotógrafo poderia ter explorado mais. O desequilíbrio ressalta quando na mesma exposição se juntam duas posturas distintas por parte do fotógrafo. Em algumas imagens o autor parece um estranho naquele meio, passando tão despercebido que a relação com os fotografados se torna frágil e banal. Noutras, com excelentes registos, temos a cumplicidade do fotógrafo com alguns dos intervenientes, como nos casos atrás referidos e que poderiam ainda ser mais potenciados se soubéssemos os nomes. Para o visitante a identificação dá um toque de realismo à situação que tem à sua frente, que ainda por cima, pelos olhares directos, se apresenta esteticamente moderna e desafiadora. O desequilibrio também se nota na composição, eventualmente fruto de um percurso que ainda há que percorrer. Se por um lado existem imagens intensas e complexas, como no caso da imagem do homem das cebolas, onde os elementos que compõem a cena entram pelos quatro lados da imagem, por outro temos alguma falta de cuidado com os fundos, sendo disso exemplo a mangueira na parede da imagem da padaria que rivaliza com os personagens. Um outro aspecto a ter em conta será o de um uso mais consciente da profundidade de campo, que poderia destacar mais alguns os intervenientes e disfarçar aspectos menos interessantes do cenário.

 

sábado, 15 de Agosto de 2009

World Press Photo em Ponta Delgada

Do muito bom ao mau, assim poderia ser o título da exposição da World Press Photo 09, em Ponta Delgada. É verdade que sou daqueles que entre o não haver exposição, por falta de condições, económicas ou outras e a exposição ser apresentada, ainda que com menos condições, claramente opto pela segunda hipótese. Mas isso não evita que se façam alguns reparos, que podem ser pedagógicos. Ainda assim, convém não esquecer que tal opção limita os horizontes. Os fotógrafos que vêem esta exposição tem referências estéticas que não são reais, porque o panorama fotográfico está muito para além desses limites.

Vem isto a propósito da exposição da World Press Photo, já aqui referida neste blog  desenhoscomluz-apaf.blogspot.com/2009/07/world-press-photo.html. É que a exposição em Lisboa, no Museu da Electricidade, estava extraordináriamente bem montada. Bem sei que estas exposições são “enlatados” que circulam e nós só temos aquilo que pagamos. Mas, depois de ver a exposição em Lisboa, sai do Teatro Micaelense com um misto de tristeza, porque a exposição perdeu grande parte da sua beleza, e de revolta, porque os fotógrafos açorianos não puderam vislumbrar a força e a modernidade das imagens. Porquê? Em primeiro lugar porque se optou por expôr muito mais imagens que em Lisboa, mas em contrapartida muito mais pequenas e com uma montagem que mais parece o resultado de um qualquer concurso de fotografia de vão de escada, do que de uma grande exposição internacional.

Primeiro há que saber escolher, e quem o fez parece-me tê-lo feito na mais completa ignorância estética ou então condicionado por questões exteriores à fotografia. Depois, não basta o Teatro Micaelense disponibilizar as paredes, há que preparar o espaço. Um arquitecto de interiores teria solucionado as necessidades de criar ritmo na exposição e de nunca se montarem as imagens todas em linha, seguidinhas, bem juntinhas tipo puzzle. Aliás, o que mais valoriza a exposição, a modernidade estética de algumas imagens foi completamente destruído pela escala, demasiado pequena, e pela montagem, com imagens encostadas umas às outras, quando elas deveriam ser lidas isoladamente.  Não me venham dizer que a montagem até foi da responsabilidade da WPP porque há sempre comissários locais, coisa que não vi na ficha técnica. Fotógrafos como Brenda Ann Kanneally, Yasuyoshi Chiba, Kevin Freyer ou Carlo Gianferro, entre outros, viram os seus trabalhos prejudicados, mas pior do que isso, os fotógrafos açorianos não viram as iamgens que mereciam ver e que, por vezes, é o click estético que falta ou que ajuda num percurso. Vamos ver se na próxima edição alguém pensa a sério nesta exposição e não aguarda passivamente que as fotografias sejam penduradas nas paredes.

sexta-feira, 7 de Agosto de 2009

ShareMag

Na fotografia, como em tudo, há momentos de desânimo e cansaço temperados com esperança e com alegrias. Por isso, todas as iniciativas de qualidade merecem ser divulgadas, acarinhadas e apoiadas. Em Portugal o panorama editorial da fotografia não é famoso, faltando debate e boas imagens, esteticamente inovadoras e que tragam algo de novo em termos de projectos e de olhares. Por isso é agradável folhear (no computador) a ShareMag, uma revista que trás bons artigos, textos que nos fazem pensar, que questionam e estou a lembrar-me de alguns de José Carlos Marques ou de Maria do Carmo Serém, que possui bons portfólios com imagens irreverentes e jovens, que concede um largo campo à experimentação, sem medos de errar, e que, para além de tudo isto não cria barreiras estanques à forma de expressão, podendo surgir um artigo relacionado com o design logo a seguir a um artigo sobre fotografia ou, de repente, nos podermos deparar com um bloco de cinema, de culinária ou de literatura. Isto permite-nos fugir às intermináveis novidades técnicas ou às imagens dos leitores, opções editoriais válidas e com o seu público, mas que normalmente escondem receitas repetidas até à exaustão que já não servem um patamar de público mais erudito e exigente. Não posso terminar, sem destacar na ShareMag nº 1 os portfólios de Olívia da Silva e Rui Pinheiro, exemplo de tudo o que escrevi antes – olhares modernos, desempoeirados e que transbordam uma alegria própria de quem ama a fotografia. Por isso a ShareMag é uma ode à liberdade de pensamento e de criação.

sexta-feira, 31 de Julho de 2009

Arles 2009


Os Encontros de Fotografia de Arles aí estão. www.rencontres-arles.com/A09/C.aspx?VP3=CMS&ID=A09P597
Ano após ano, desde há 40 anos, mantendo a mesma intenção de mostrar fotografia. Durante dois meses e meio, os Encontros terminam a 13 de Setembro, esta pequena cidade do sul de França, transforma-se numa montra onde se cruzam novos olhares com valores confirmados, num conjunto de 66 exposições de autores oriundos da Europa, América, Ásia e África. Este ano a convidada especial é Nan Goldin, que a dado passo do site dos Encontros afirma que a fotografia que lhe interessa “ (...) não é histórica, nem pedante, nem de um género em particular, mas simplesmente aquela que revela uma forma de beleza (...)”, uma confissão fantástica para todos os que gostam de fotografia.

Outros olhares conceituados estão presentes, como Willy Ronis, Jean-Claude Lemagny, Duane Michals, Martin Parr, Joan Fontecuberta, Giorgia Fiorio ou Eugene Richards. Presente está também Paulo Nozolino, no Atelier des Forges, com Bone Lonely e Far Cry, confirmando uma vez mais além fronteiras o reconhecimento do seu trabalho. Destaque para a secção de Jovens Talentos e também para Rimaldas Viksaitis, fotógrafo lituano, deficiente motor e Prémio Descoberta 2009, que retrata o quotidiano de pessoas que convivem com a pobreza, o alcool e a violência. O programa inclui ainda diversos workshops e colóquios, mantendo assim a sua tradição formativa e de troca de experiências.

Mas os Encontros não são só as exposições ou os workshops. Durante o verão, em Arles, são muitas as exposições paralelas ao evento, onde muitos pequenos comerciantes têm gosto em expôr fotografias nas paredes ou nas montras das suas lojas. É uma pena que por cá ninguém aposte nesta opção, que poderia até ser interessante em termos turísticos. Os Encontros de Arles inspiraram os Encontros de Fotografia de Coimbra, o melhor evento regularmente organizado, os Encontros da Imagem, em Braga, que continuam a lutar contra ventos e marés, ou os defundos Bienal de Cascais, FotoPorto, Mês da Fotografia ou LisboaPhoto, em Lisboa, estes três últimos com um figurino ainda que diferente de Arles. E Arles, que podia ter sido uma boa lição.

segunda-feira, 27 de Julho de 2009

Reading Point

Catarina Cabral expõe na Livraria Trama, em Lisboa, Reading Point. Este é um caso e que a justificação do press release não chega para suportar a exposição, e é pena, porque já temos visto excelentes trabalhos de Catarina Cabral, autora não só ligada á fotografia, mas também ao cinema e ao documentário. Aliás, o seu olhar é bastante influenciado por estas áreas, o que resulta numa mais valia estética presente nos seus trabalhos.

Aqui, pretendia-se sublinhar a relação dos espaços com a leitura, mostrando o cruzamento do livro com os locais onde pode ser lido. Nada melhor que uma livraria, só que as imagens, dispersas ao longo da livraria, escondidas nos espaços livres entre as estantes, de pequena dimensão quando comparadas com estas, perdem-se e assumem um aspecto meramente decorativo ao ocupar os exíguos espaços livres. É pena que uma exposição se torne um acessório de outra actividade, diminuindo-se a si e à autora, que não o merece. As imagens surgem-nos abruptamente, ao virar da esquina de cada estante, sem nexo ou linha condutora. Este ar disperso das imagens é sublinhado pelo aspecto caótico do espaço, sobreocupado, que podendo ser uma atitude interessante para uma livraria, não o é para se mostrarem imagens. Ainda que correndo o risco de alguma monotonia formal, devido a uma abordagem repetitiva, a verdade é que haveria outras soluções que poderiam integrar as imagens no espaço e na sua função, eventualmente mais criativas e mais trabalhosas.

sábado, 25 de Julho de 2009

Estranhos

Recorrendo a cenários da sua vida quotidiana Juan Manuel Castro Prieto apresenta-nos Estranhos, na Kgaleria, em Lisboa. O fotógrafo, nascido em Espanha em 1958, é membro da agência VU, tendo a sua obra exposta já em diversos países e publicada em inúmeros jornais, revistas e livros, para além de integrar diversas colecções. Ainda que aqui, na Kgaleria, nos apresente apenas trabalhos em preto e branco a verdade é que a plasticidade dos seus trabalhos atinge o seu esplendor na côr, um caminho mais recente do autor, onde conjuga a côr com uma harmonia compositiva muito interessante, baseada na delicadeza de tonalidades, daqui ressaltando momentos de subtileza e sensibilidade presentes na imagem final.

Nas imagens expostas em Lisboa transparece um tom péssimista, onde a interpretação pessoal dos espaços e pessoas é o elemento mais marcante. São também imagens que nos fazem hesitar em saber se estamos a encarar um sonho ou a realidade, pelo uso da luz, pela impressão ou pelo recurso a ferramentas de ordem técnica. Um elemento marcante neste conjunto de imagens é o extraordinário uso da luz, que de resto, diga-se, é acompanhado por uma excelente impressão. Tais opções estéticas não são de estranhar, já que o trabalho em preto e branco de Prieto é muito marcado pelo facto de no início da sua carreira ter feito o trabalho de revelação e impressão laboratorial de fotógrafos como Chema Madoz e Cristina Garcia Rodero.

Talvez para o grande público esta não seja das mais espectaculares exposições que a Kgaleria nos apresentou nos últimos tempos. Mas Juan Prieto merece a atenção do nosso olhar e esta exposição não deixa de nos refrescar a visão, necessária e fundamental para continuarmos a gostar de fotografia. Por isso dê um salto até à Kgaleria, até dia 31.

terça-feira, 21 de Julho de 2009

Paisagens do Vento


Quem disse que as imagens são apenas para serem vistas? E porque não sentidas ou tocadas? No seguimento do projecto Imagine Conceptuale, que, desde 2003, o MEF – Movimento de Expressão Fotográfica tem vindo a desenvolver com alunos portadores de deficiências visuais extremas, surge agora no Palácio de Santa Catarina, em Lisboa, mesmo junto ao miradouro com o mesmo nome, Paisagens do Vento, um conjunto de imagens que não são para ver, mas antes para sentir.

É uma forma interessante de pensar a fotografia, remetendo esta para universos que vão para além da imagem que estamos habituados a ver. É consensual que perante um objecto diferentes fotógrafos “vêem” diferentes imagens. E alguém com uma deficiência visual? Devidamente orientado sobre a cena que se desenrola à sua frente, também não formará no cérebro uma imagem? Foi esta questão que, há alguns anos atrás, levou o MEF a desenvolver um conjunto de actividades que apresentou no Arquivo Fotográfico de Lisboa e na Bienal de Fotografia de Vila Franca de Xira.

Em Paisagens do Vento procurou-se a realização de imagens onde a própria imagem não se encontra, tomando-se o caminho da verdadeira conceptualização da imagem fotográfica. Por isso o recurso ao som identificativo dos lugares ou assuntos como percepção espacial. Este projecto, que passou por diversas fases, partiu da captação das imagens, devidamente orientada por monitores, juntou-se-lhes a captação do som, seguindo-se a sua interpretação e transformação em relevo e terminou numa exposição, em que o público é posto na pele de um deficiente visual conhecendo os lugares e os objectos através do seu relevo táctil, não visível, obtido a partir da imagem fotográfica original. Tal, possibilitou aos formandos o desenvolvimento da sua criatividade imagética dos instantes fotográficos, e ao público, tal como também aos formandos, a compreensão e visualização de imagens recorrendo a outras capacidades cognitivas além da visão, como o tacto ou a audição. Na exposição, completamente às escuras e seguindo uma corda enquanto guia, o público é convidado a parar em locais definidos, a ouvir o som e a tocar no relevo de uma imagem, imaginando-a assim pelo toque e pela discrição áudio.

Registe-se que esta iniciativa foi uma colaboração entre a Associação Promotora de Emprego para Deficientes Visuais (APEDV), o MEF - Movimento de Expressão Fotográfica e a Oficina da Fotografia do Departamento de Acção Social da Câmara Municipal de Lisboa. Paisagens do Vento é uma exposição que pode ser vista até 2 de Agosto, em Lisboa, no Palácio de Santa Catarina, na Rua Marechal Saldanha.

sábado, 18 de Julho de 2009

Fotografia etnográfica - o ser humano: o indivíduo e o grupo



Fotografar pessoas é um grande desafio e ainda maior se torna, se às imagens tivermos de juntar a sua componente etnográfica.

Retratar os ambientes rurais, as gentes e seus costumes, já não é fácil de se encontrar nos dias de hoje, o que transformou este workshop do MEF- Movimento de Expressão Fotográfica, num momento único a não perder, durante dois dias na aldeia da Erra, em Coruche.

Numa recolha deste tipo, a componente sociológica que estuda o comportamento humano e as formas de comunicação em função do meio e os processos que interligam o indivíduo em associações, grupos e instituições, teve de se apoiar no conhecimento dos mais velhos, que ajudaram bastante na montagem dos “cenários” que nos transpostaram para tempos que as suas memórias teimam em manter vivas.

O Rancho Folclórico da Erra, com uma disponibilidade total, reviveu e permitiu-nos fotografar o Homem como ser biológico, social e cultural. Sendo cada uma destas dimensões por si só muito ampla, o conhecimento antropológico teve de ser organizado em áreas que indicaram uma escolha prévia de certos aspectos a serem privilegiados, como a “Antropologia Social e Cultural”, onde as interacções entre os indíviduos e os grupos deram origem a “cenários” como a taberna, a mercearia e a igreja, entre outros. Com trajes e posturas a rigor, os “cenários” foram-se desenvolvendo numa miríade de imagens cuja escolha do momento certo quase passava despercebida pela opção dos enquadramentos com o objectivo de criar harmonia no conjunto.

Neste contexto, nasceu o conceito “o ser humano: o indivíduo e o grupo. Esse indivíduo que se percebe no mundo, embora não de maneira clara e objectiva, começa assim a interagir e a interferir com o mundo que o rodeia. Neste sentido, podemos perguntar o que mais pode ser mencionado como elemento caracterizador do ser humano? Partindo da afirmação aristotélica de que o Homem é um ser político, podemos perpassar os diversos momentos da história do pensamento e verificaremos a constância de tal afirmação. O Homem é um ser social, vive e constrói o grupo para sobreviver. Entretanto isso não é tudo e nem é absolutamente verdadeira a afirmação da essencial sociabilidade do Homem. É verdade que se humaniza no grupo, mas, podemos dizer também que prefere o isolamento, algo que aparece reflectido na série fotográfica que apresento.

O MEF, mais uma vez, está na linha da frente na dinamização de workshops que agregam aspectos sociais/culturais às fotografias, o que as transformam em documentos vivos da nossa História, para além de pedagogicamente serem bastante úteis a quem quer aprender a executar correctamente este tipo de imagens.

Paulo JR Simões

terça-feira, 14 de Julho de 2009

O trabalho incorporado na criação artística como factor de valor

Para Marx – hoje relançado, ao menos como analista dos sistemas económicos, indispensável à própria compreensão da lógica capitalista – o valor das coisas resulta do trabalho incorporado nelas. A raridade e as leis da oferta e da procura são subsidiárias. A génese do valor reside na quantidade do trabalho incorporado.

Dito isto - de forma tão simplista e superficial, claro – compete-me trazer aqui, então, o meu ponto de vista marxista (talvez fora melhor dizer marxiano) nesta matéria para falar de arte. Não porque politica ou filosoficamente o seja, marxista, mas porque essa formulação – perante a degradação do valor do trabalho incorporado no campo da criação e da produção artísticas – me parece oportuníssima!

A massificação da produção “artística” nas sociedades contemporâneas, longe de representar a democratização da criação artística (duvido mesmo que a criação em si possa ser democratizada) é um processo de degradação acelerada da produção artística. A ideia de que todos e cada um, sem preparação prévia, sem apetrechamento técnico específico e a mais das vezes sem sequer uma centelha de talento, pode expressar-se artisticamente (lá isso pode!) fazendo disso (isso é que não faz!) produto artístico é o maior inimigo de uma verdadeira democratização das artes, que é, deveria ser, o usufruto da criação de que apenas alguns – dotados, mas sobretudo preparados – são realmente capazes. Concursos como “Atreve-te a Cantar”, onde a mediocridade substitui qualquer critério de auto-exigência, muito têm contribuído, ao nível da população em geral, para fazer crer que a arte está ao alcance de todos e, pior – muito pior –, como resultado de mera vontade pessoal e, vá lá, uma pouca persistência, muita sorte e um estúpido sorriso de descontracção na execução da coisa!

Porém, se este fenómeno é próprio e “naturalmente” resultante de uma sociedade de consumo - em que a perversão não reside só no exagero do consumo em si mesmo, mas tanto ou mais na valorização da quantidade de consumo como factor de determinação da importância, grau ou estatuto da pessoa - é muito mais preocupante a tendência para contaminar certas elites com esta mesma praga ideológica, onde a “criatividade”, a “originalidade” ou a “imprevisibilidade” (que, a mais das vezes, é, afinal, tão previsível!) são a medida. Para fazer arte, à luz destes cânones pósmodernistas e conceptualistas, bastará o talento (duvidoso) que se atribui a esta ou aquela expressão. Sobretudo no domínio das artes plásticas e das artes performativas, sobretudo no teatro, porque no canto ainda vai valendo o desafinar e na dança pode partir-se uma perna…

Neste quadro o conceito marxista do trabalho incorporado como valor da mercadoria (ao caso artística) parece-me extremamente útil para ser recuperado e medir com materialidade objectiva o que é e o que não é arte. Eu, que nada sei de fotografia, posso ter a sorte (o acaso) de bater uma chapa absolutamente divinal, quiçá superior a uma de Sebastião Salgado, que isso não faz de mim um fotógrafo de arte. Porque onde em mim há acaso e arbitrariedade, nele, além da sensibilidade (muita), há o domínio das técnicas e, nestas, a prevalência de uma enorme quantidade de trabalho incorporado em anos de aprendizagem, aperfeiçoamento, treino. O que em mim pode ser, na melhor das hipóteses, expressão sensível de alma (aceite-se a terminologia romântica) num golpe de sorte, nele é procura, experimentação, decisão consciente.

É por isto que, muito sinceramente e sem preconceitos de modismos ignorantes, quando vejo umas pontas de cigarro dentro de um copo de água feitas “instalação artística” me rio a bandeiras despregadas, do mesmo modo que, embora não fazendo o meu gosto, respeito e me inclino perante o trabalho paciente, técnico e pormenorizado de um desenho do Medina. E é por ser tão flagrante este paradigma idiota que prevalece sobre o valor do trabalho incorporado e do trabalho incorporado como valor em arte que aqui resolvi trazer isto à liça…

De resto, bem lá no fundo, o desvario do capitalismo financeiro super-especulativo que o levou a si mesmo à mais estrutural crise económica de que há memória e para que, como o tempo mostrará, já não há remédio, é, em tudo identificável, no campo da arte, com a super-especulação de produtos inexistentes enquanto tal: um pseudo-objecto artístico resultante de arbitrariedade e do acaso de composições sem norma e sem trabalho incorporado é em tudo semelhante aos títulos do over-gambling dos “produtos” financeiros… Ambos – este no campo da economia e do material, aquele no campo da criação e do imaterial – são meras expressões da ideologia neoliberal, mesmo quando cuidadosamente travestida de preocupação social e/ou roupagem de uma certa esquerda politikamente muito correkta…

Saturado o mercado do vazio dos produtos de rendimento fictício, inflacionado, a partir de uma não-produção – leia-se de uma não-representatividade material: sem trabalho incorporado nem matéria prima concreta – seguir-se-à, mais tarde ou mais cedo, no domínio das artes um mesmo destino de esvaziamento desse “valor” de certos subprodutos artísticos. Em breve, estou absolutamente certo disso, a reflectir-se desde logo no carácter também especulativo das artes plásticas hodiernas; e, a prazo, na própria avaliação com que, actualmente ainda, estas manifestações “artísticas” são intelectualmente avalizadas pela crítica comprometida (comprometida com interesses e capelinhas) e por uns quantos decisores amigados com o poder político…

Criação artística sem trabalho incorporado, sem domínio factual de técnicas específicas, sem dispêndio de tempo e energias na preparação e na execução, criação artística não suportada em conhecimento próprio, é, quando muito, um ensaio de talento para um percurso artístico que só se pode fazer com suor e com tempo. O talento – indispensável, é certo – não é mais do que a faísca que incendeia todo o combustível que o trabalho é.

Muito prosaicamente, como dizia um velho electricista meu conhecido: “se o teatro desse choque não havia tanto malandro em cima de um palco!”…


Castro Guedes, encenador

Publicado na revista “mealibra” nº 23, 3ª série, 2009

sexta-feira, 10 de Julho de 2009

O fundamentalismo

Vai longa a polémica em volta do fotógrafo Edgar Martins. Quando há dias escrevi a propósito da exposição da World Press Photo de que algo estava a mudar no fotojornalismo internacional, até parece que estava a advinhar a polémica. É que hoje existe uma relação cada vez mais estreita entre fotojornalismo e fotografia de arte e daí que o convite do New York Times seja perfeitamente natural. Resta saber se os fotógrafos portugueses estão preparados para esta nova era.

A este propósito acho muito interessante o texto abaixo transcrito, da autoria de João Henriques no blog www.joaohenriques.com/abitpixel/edgar-martins-debaixo-de-fogo/. Este texto levanta algumas questões pertinentes ácerca da actividade do fotógrafo, que em nossa opinião deveriam merecer alguma reflexão, até porque eles têm uma ligação directa com o mercado e o meio das galerias.

(…) Segundo consta, alguns olhares mais atentos descobriram algumas imperfeições corrigidas em computador. Confrontado com o facto, o fotógrafo terá sido incapaz de o negar e o ensaio foi mesmo retirado do ar. Já nos comentários ao artigo, me referira à enorme responsabilidade que seria o realizar de uma encomenda desta dimensão, no mais conceituado jornal americano, cuja audiência é de milhões, para mais altamente exigentes, extremamente competitivos e agressivos, onde o escrutínio pode ser arrasador, sobretudo em se tratando de fotógrafos estrangeiros. Edgar Martins, vencedor da última edição do BesPhoto, terá cometido a imprudência de enunciar a não manipulação digital, quando alguém veio a descobrir uma ou mais “correções” na imagem, as quais pelos vistos foram impossíveis de negar.

Nesta progressiva mistura que se verá entre os fotógrafos “de arte” e a prática do fotojornalismo, vários problemas se levantarão ou já se levantam, sendo a tentação do “perfeccionismo” apenas um deles. A fotografia fine-art tende a ser imaculada e perfeita, a outra não. Alguns artistas, pesem embora os prémios, são comissionados para produzir ensaios, para os quais na maioria da vezes não estão vocacionados, aceitando-os pelas verbas envolvidas e obviamente pelo divertimento. Viajar pelos EUA com tudo pago e a fotografar, está próximo do sonho de qualquer fotógrafo. Depois de ver o primeiro slideshow, ficou claro que as imagens não eram impressionantes, não teriam que ser, obviamente, mas depois deste “escândalo”, é óbvio que o risco em que incorreram os editores nesta contratação lhes saiu muito caro, situação que aliás, a todos coloca em posição altamente comprometedora. Infelizmente, também em Portugal se repetem os exemplos deste tipo de comissões, em que fotógrafos respeitados pela arte que produzem, aceitam fazer trabalhos que estão fora do escopo habitual da sua fotografia, saindo obras menores. Mas quem as não tem? A responsabilidade está não apenas no fotógrafo, que aceita porque o dinheiro faz sempre falta e porque sabe que mesmo trabalhando em algo com que não está muito rotinado ou vinculado, a não existirem problemas de maior, é sempre algo com que se pode aumentar o curriculo. Mas a bola está também do lado de quem contrata, que o faz sobretudo pelo nome, como se isso fosse garantia de qualidade. Um fotógrafo de moda é bom a produzir moda, mas sê-lo-á a fotografar arquitectura? (…)

Convinha também ouvir o Edgar Martins, se efectivamente disse que não manipulava as imagens ou algo parecido, se tal foi escrito mas não dito, se isso foi algo que se escreveu de forma mais ligeira no momento de apresentação do fotógrafo ou ainda se efectivamente errou porque “se converteu” à manipulação e não comunicou ao mundo esse facto. Esse tipo de discussão não é novo. Noutros tempos discutia-se a validade ou não do negativo integral. Hoje discute-se se a imagem é ou não válida se fôr manipulada num qualquer programa de tratamento de imagem, já para não falar no conceito de manipulação, sabendo-se que qualquer imagem digital, quando se quer imprimir num laboratório profissional tem de ser adaptada aos perfis da impressora.

Edgar Martins, para além do prémio BESPhoto foi bolseiro do Centro Português de Fotografia, das Fundações Gulbenkian, Oriente e Macau, viu o seu valor reconhecido pelo Arts Council, etc. Será que todos estavam errados? Edgar Martins no blog artephotographica.blogspot.com/ , que parcialmente transcrevemos, afirma que “já esperava esta discussão, o que não esperava era a forma como aconteceu”. Diz-nos o fotógrafo que “(…) o problema foi o “New York Times” ter vendido a história como vendeu”, ao mesmo tempo que afirma “sou crítico do fotógrafo como turista, que produz um trabalho factual, recuso ser um mero intermediário, que dá uma visão fragmentária”. O artephotographica confirma que Edgar Martins recorreu a um técnico de Photoshop para transmitir intencionalmente a ideia de um mundo paralelo – daí a imagem espelhada que foi detectada. E que isso não se chama manipulação: “Não foi uma alteração para servir a estética. É uma mensagem que eu quero passar da dualidade entre a aspiração e o excesso, a ruína e a decadência”.

O debate está aberto e é positivo para a fotografia, desde que sejamos honestos nos argumentos, desde que pensemos mais com a cabeça e menos com o coração. Serve para reflectir sobre os limites da imagem e o papel, predominante ou não, do conceito.

quinta-feira, 9 de Julho de 2009

Uma imagem, um autor - Inês Querido

A fotografia permite-nos regressar aos lugares de onde viemos, para não nos esquecermos de quem somos. É uma forma de resistência ao tempo e ao vazio do esquecimento. O tempo torna-se uma sucessão de imagens que podemos guardar, eternizar ou simplesmente desperdiçar. Quando fixamos a imagem do instante, breve, efémero, garantimos a possibilidade de o revisitar com olhares diferentes que variam consoante o momento em que o fazemos.

Não podemos confiar na memória para guardar todas as imagens que nos identificam, que com o passar dos anos
vão-se tornando cada vez menos precisas. Foi com esse receio que recorri à fotografia para perpetuar a rotina que faz os dias sempre iguais dos meus avós. É nas imagens dessa rotina tranquila que encontro todo o conforto da infância, sempre que regresso àquela casa, àquele tempo. Aqui fica o registo, tão eterno quanto os dias o podem ser.

A presente imagem dá início ao projecto Everlasting as days can be disponível em www.inesquerido.com

Inês Querido

segunda-feira, 6 de Julho de 2009

World Press Photo


Até 19 de Julho, no Museu da Electricidade, em Lisboa pode visitar a exposição da World Press Photo e verá que vale a pena. Confesso que não era um fã da Word Press Photo, no entanto, este ano fiquei rendido à exposição, e isso aconteceu porque ela mudou, para melhor, sublinhe-se. Em primeiro lugar este ano destaca-se a importância de cada imagem, havendo menos painéis com várias imagens em detrimento de painéis com uma só imagem. Em segundo lugar a leitura das imagens ganhou, já que o texto que as identifica é legível a uma distância que permite visualizar correctamente a imagem, evitando a dança de apreoximar para ler o texto e afastar para ler a imagem. Em terceiro lugar, e talvez o mais importante, a exposição da World Press Photo entrou em caminhos estéticos muito mais contemporâneos. A certa altura não distinguimos se estamos a ver imagens de jornalismo ou se estamos numa qualquer galeria. E isso é bom, porque a fotografia apresentada acentuou os caminhos de modernidade que nos últimos anos experimentou, mostrou olhares novos e conquistou um novo patamar de qualidade. Juntemos ainda uma outra alteração, eventualmente decorrente da estética, que é o facto de cada vez mais haver lugar para o suscitar de questões por quem vê estas imagens, para cada um descodificar as imagens apresentadas, seja pela linguagem estética, seja pelo momento, seja pela composição, já não indiscutivelmente subordinadas ao momento, mas rivalizando de importância com este. Em alternativa à passividade, propõe-se agora uma relação dinâmica com dois sentidos entre a fotografia e o público. Também é verdade que deveríamos olhar com atenção para aquelas imagens. Não vemos daquilo nas páginas dos jornais portugueses, talvez porque os fotógrafos nacionais visitam pouco as exposições, talvez porque os fotógrafos correm de uma conferência de imprensa para um incêndio, já a pensar na entrevista que vão fazer a seguir, num roteiro que contraria as leis da fisica que dizem ser impossível estar em dois locais diferentes à mesma hora, talvez porque os jornais cada vez mais desvalorizam mais a profissão, recorrendo a mão de obra gratuíta e altamente rotativa, talvez porque precisamos de editores cultos que vejam exposições, e ainda um sem número de outras razões, se calhar não menos importantes.

A World Press Photo é bem mais do que esta exposição que nos visita anualmente. É uma organização independente, sem fins lucrativos, fundada na Holanda, em 1955. A sua inicial tarefa de apoiar e divulgar internacionalmente o trabalho dos fotógrafos de imprensa alargou-se e hoje funciona como uma plataforma independente de fotojornalismo, promove o livre intercâmbio de informação e envolve-se em diversos projectos de formação de fotojornalistas, colocando em contacto os mais veteranos da profissão com muitos fotógrafos
recém-chegados à profissão. Por isso não admira o quanto deve ter sido difícil seleccionar estas imagens de um conjunto de cerca de noventa e seis mil que estiveram em concurso, envolvendo mais de cinco mil e quinhentos fotógrafos. Todos os premiados apresentam grandes trabalhos, quer em termos estéticos quer em termos da função do fotojornalismo – a notícia. Mas se quiséssemos destacar alguns nomes não poderíamos deixar de mencionar a modernidade dos olhares de Jérôme Bonnet, de Roger Cremers ou de Massimo Siragusa, este muito especialmente pelo trtamento da côr e pela forma como relaciona o olhar com o objecto registado, de Gleb Garanich e Kevin Frayer pela emoção que colocam nas suas imagens, ou ainda de Steve Winter, com as magnificas imagens feitas para a National Geographic que desarma todos aqueles que pensam que fotojornalismo é apenas e só sinónimo de guerras e morte. Alguma coisa está a mudar no fotojornalismo internacional e prova disso é o interessante trabalho de Carlo Gianferro, enveredando por universos kitch que há uns anos não seriam admissíveis na imprensa, ou a imagem de Michelle Obama descansando sobre o ombro do marido, onde não é a apenas importância do momento que se destaca, mas também a luz fantástica que Callie Shell consegue captar. E poderíamos continuar a referenciar alguns dos fotógrafos ali presentes como a contemporaneidade de Brenda Ann Kenneally ou a composição perturbadora de Yassuy Oshi Chib quando retrata os guerreiros Massai. Esta é pois uma lição de fotografia contemporânea e não há desculpas para a não visitar, mesmo para quem é de fora de Lisboa ou diz que a cultura é cara – está aberta ao fim de semana e a entrada é gratuíta. Juntemos ainda o facto de a apresentação em Portugal ser uma aposta ganha. O espaço é fantástico, a exposição está bem organizada, o grafismo dos painéis é leve e valoriza as imagens, as impressões são excelentes e a iluminação adequada.

Entretanto, se quiser saber mais sobre a World Press Photo, então dê um salto a www.worldpressphoto.org . Como atrás escrevi, alguma coisa está a mudar no fotojornalismo internacional e há que estar atento!

quarta-feira, 1 de Julho de 2009

Dias úteis


Dias Úteis, de Catarina Botelho, está patente em Lisboa, na Rua da Anchieta, na antiga sede da Editora Bertrand. É uma exposição que espelha o prazer de fotografar, um prazer descomprometido, sem encenações, solto no olhar, longe de formalismos estéticos, sem no entando deixar de se perceber uma educação do olhar que marca todas as imagens. É essa educação do olhar que nos evoca o cinema ou a pintura (mesa da cozinha – 2009), num misto de sensações que o espaço, despido e degradado acentua.

As imagens funcionam como momentos de um filme íntimo, e sublinho filme, porque há nelas qualquer coisa de cinematográfico, seja na composição, nos pontos de vista ou até na luz (Yanie a sair do banho – 2009 ou Luisa a dormir – 2008). É também a beleza da iluminação que ajuda a acentuar o carácter intimista de todo o conjunto, onde um olhar moderno se combina com uma boa impressão e com um domínio claro da técnica (Maria no jardim – 2008 ou Joana e Alice – 2008).

Uma palavra para a montagem. A escolha do espaço resulta em pleno. Falamos de uma casa e é precisamente numa casa com escadas, salas e cozinhas onde as imagens são apresentadas e não numa galeria, com longas paredes brancas. É como se transportássemos uma habitação, com cores, paredes e recantos, para uma galeria. Resulta igualmente a ideia de uma fotografia por sala, conferindo a cada imagem um valor absoluto, onde se sublinha cada momento e este vale por si só e não em função das restantes imagens para a sua leitura, ainda que exista no conjunto uma sensação de continuídade e de percurso, não apenas fisico mas também de emoções. Na verdade cada fotografia e cada sala marcam um território definido como se de um momento específico se tratasse. E é a importância deste momento e não as pessoas que faz com que raramente damos atenção aos rostos, sendo os espaços e os objectos desses espaços bem mais importantes. Às pessoas fica reservada a poesia dos gestos ou da luz.

Talvez o aspecto menos conseguido desta exposição resida na forma como as fotografias são presas à parede. Esta moda “dos preguinhos”, agora muito comum em Lisboa, é uma abordagem interessante enquanto postura estética, mas implica a manutenção da exposição. Ao fim de alguns dias as imagens são vistas não esticadas e planas mas em superfícies mais ou menos onduladas, em função do peso do papel, do calor e da humidade. Por outro lado, um dos aspectos interessantes desta exposição é o espaço. A escolha resulta muito bem com as imagens em si e com o que elas nos querem contar, devendo fazer-nos pensar em quantos espaços do género poderiam ser usados para fins semelhantes. Um edifício pombalino com o seu cachet, onde a luz entra generosamente, onde advinhamos paredes, corredores e vida, não poderia ser melhor escolhido como cenário desta exposição, patente até 18 de Julho.

domingo, 21 de Junho de 2009

S. Tomé: Máscaras e Mitos


Há algo de perturbador em S. Tomé: Máscaras e Mitos, de Inês Gonçalves, apresentada na galeria Pente 10, até 31 de Julho próximo. Na realidade, fiquei preso ao formalismo provocatório de algumas imagens, assentes na pose para o fotógrafo e no cenário ingénuo, juntos com uma execução técnica irrepreensível e uma boa impressão. Por outro lado, esse mesmo formalismo é fruto de uma paixão pelo projecto e de um envolvimento da fotógrafa com os actores e com os espaços, que se traduz em fotografias muito vividas e muito pessoais, que ultrapassam os retratados, que estão a teatralizar a atitude perante a câmara, para passarmos a visualizar o retrato da própria fotógrafa e o seu estado de alma. O resultado é talvez o trabalho mais bem conseguido de Inês Gonçalves, ressaltando dali uma maturidade estética já longe de Cabo Verde (1999), Odiana (1998) ou Língua Franca (1996). Mais do que por qualquer inovação técnica, essa maturidade é fruto e consequência do rigor técnico, veja-se a iluminação e a impressão de algumas imagens, e do prazer que transborda de algumas fotografias, expresso naqueles magníficos cenários de (todas) as fotografias.

Os retratos aqui apresentados são encenações de pessoas que fazem teatro, com roupa de personagens do teatro, numa fantasia que casa muito bem com a pose para a fotografia. São personagens representadas por grupos de teatro, designados “de tragédia”, misto de felicidade e desamor, protagonizados por bons e maus, por anjos e vilões que, de resto, um vídeo muito interessante ajuda a esclarecer visitante. Num mundo massificado de fotografia onde se reclama a “naturalidade” com laivos de voyorismo, a imagem em pose funciona como uma provocação estética, algo que se adquire com o passar dos anos e que representa uma teatralização dentro do próprio teatro das personagens, dos cenários ou das roupas. Ao mesmo tempo, a combinação do cenário com as personagens e a pose são de uma clareza e de uma ingenuidade formal que nos cativam. Juntemos-lhes a dignidade com que todas as pessoas são representadas e temos razões mais do que suficientes para ir até à Pente 10 ver uma boa exposição de fotografia. Verá que vale a pena!


sexta-feira, 19 de Junho de 2009

Sensation

Se não está muito ocupado neste sábado dê um salto à Kgaleria e veja a exposição de Guillaume Pazat, Sensation, na sua primeira estreia individual. Com este autor a Kgaleria continua a mostrar uma fotografia contemporânea de qualidade, jovem e irreverente. Que mais poderíamos pedir a uma galeria?

Recorde-se que a Kgaleria, que se situa na rua da Vinha, ao Bairro Alto, abriu as suas portas em 2005, tendo vindo a apresentar diversas iniciativas no campo da fotografia que vão muito para além das exposições. Guillaume Pazat, actualmente ali presente, nasceu em França, em 1970, veio para Lisboa em 1998, sendo um dos fundadores do colectivo Kameraphoto. Em 2005 venceu o prémio BES/Visão Fotojornalismo, tendo já em 2001 sido distinguido com uma menção honrosa neste mesmo prémio, ano em que também foi distinguido com o prémio do Sindicato dos Jornalistas com o seu trabalho sobre o casal Ventoso, em Lisboa. Verá que dá por bem empregue o seu sábado.

Uma imagem, um autor - Madalena Lucas

Fiz esta imagem em Nova Iorque. Vagueando em East Village pelos pormenores do bairro que se encaixam em paisagens urbanas e se desfazem em quadros mentais, em interpretacões e curiosidades. Resquícios nas paredes de sonhos escritos, resquícios nas esquinas de encontros, de todas as formas de viver, num espaço único. Lembra-me que cada pessoa se pode encaixar nesta forma de bairro. Tenho presente as cores, as línguas que se ouvem, o consolo na violência de se estar perante uma grande cidade. Paro,
lembro-me de ter parado, absorvendo a rua 10 percorrida pelos seus inéditos ou pelos seus locais convencionais. Eu percorrendo memórias. E como me pareceu simples tentar parar tudo ao mesmo tempo, tirar a confusão a mais e o barulho em excesso, parando o bairro, os carros... e numa pausa aceitar o cruzar de uma pessoa numa passadeira integrada naquela que viria a ser a rua desta imagem... de uma pausa que ficou.

Madalena Lucas

sexta-feira, 12 de Junho de 2009

Pinocchio

Pinocchio, de Jorge Molder, apresentado na Galeria Chiado Espaço 8 (Fidelidade Mundial) é, ao mesmo tempo, uma exposição perturbante, intrigante e excelente. Numa sala que encanta, onde predomina o branco e a pedra, as imagens parecem observar o visitante que ali entra, como se de um intruso se tratasse num espaço que é delas por natureza. São imagens que nos transmitem tristeza e interrogação e, simultaneamente, distância. O artista, partindo de máscaras e moldes da sua cabeça e mãos, cria momentos únicos no tempo como se de expressões reais se tratasse. Como se a imagem de algo parado no tempo dependesse da fracção de segundo invocada pelo obturador da máquina. Os olhos fitam-nos em intrigantes estados de alma que nos tocam. Em termos da relação do objecto com o público, este é um trabalho que vai muito mais longe nessa interacção do que outros anteriores, veja-se por exemplo Luxuri Bound, onde reúne o essencial da sua obra fotográfica, incluindo os trabalhos da série Nox apresentados na 48ª Bienal de Veneza, em 1999.

Com uma impressão irrepreensível, com uma dimensão adequada e com um suporte muito bem escolhido, papel de aguarela espesso que nos lembra o gesso dos moldes, o autor oferece-nos uma excelente distribuição no espaço, jogando com a arquitectura do local numa dualidade de presença/ausência de imagem, mostrando-nos a importância de uma montagem cuidada e pensada para aquelas imagens. A ideia da colocação das imagens directamente sobre a parede é interessante porque a textura se confunde com a parede. No entanto o resultado final fica prejudicado sob o ponto de vista do visitante, onde num dia de calor se levantam e encaracolam as pontas de algumas imagens. É verdade que o ambiente criado pelas imagens não suporta uma moldura, mas há outras opções que não o papel directo sobre a parede, ainda que seja uma moda muito em voga nos últimos tempos. No entanto trata-se de uma excelente exposição que vivamente aconselhamos, ou não fosse mais um trabalho de Jorge Molder. Por último uma palavra para o catálogo que acompanha a exposição, ao preço simbólico de 1 euro, onde se destaca um excelente texto do que é e de como se faz (pensa) a fotografia.

segunda-feira, 8 de Junho de 2009

Joshua Benoliel na PhotoEspaña


Está aí mais uma edição da PhotoEspaña, uma afirmação plena do panorama cultural espanhol no domínio da imagem. O programa temático da PhotoEspaña 2009 centra-se na ideia do Quotidiano, momento que no remete para a diversidade da vida de cada um de nós, para os instantes, pessoas, lugares e objectos com que nos relacionamos diariamente. Mas o tema leva-nos também a reflectir sobre as tendências recentes da imagem contemporânea, assim como de toda a estrutura cultural inerente aos nossos actos, contruindo histórias que, como afirma o texto de apoio a esta mostra, se distanciam das narrações extraordinárias, heróicas e espectaculares e que previligiam a espontanedade e a subjectividade. Este magnifíco conjunto de exposições, colóquios e workshops, comissariados por Sérgio Mah, pode ser seguido em www.phedigital.com/

Por isso se insere que nem uma luva a exposição de Joshua Benoliel nesta edição da PhotoEspaña. Benoliel, fotógrafo de nacionalidade britânica e origem judaica, nascido em Lisboa, em 1873, foi um dos grandes fotojornalistas europeus do início do século XX. Recorde-se que já em 1991, com selecção de António Sena, foi apresentado na Europália, com um sucesso tão grande quanto era o desconhecimento da sua obra além fronteiras.

O seu período de maior produção ocorreu entre 1906 e 1918, tendo publicado as suas imagens na Ilustração Portuguesa e O Século, entre outros jornais e revistas da época. Falecido em 1932, a sua produção ultrapassa os 
60 000 negativos, espólio hoje dividido entre a Torre do Tombo, pela via do Centro Português de Fotografia, e o Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa. As suas imagens possuem uma abordagem simultaneamente sentida e descritiva e de um olhar irreverente e original, nomeadamente nos pontos de vista que procura. Acresce ainda o facto de possuírem algo de que se dará importância muitos anos depois – o instante decisivo. Benoliel possuí imagens onde o momento do disparo é determinante, demonstrando uma capacidade notável de viver e antecipar o acontecimento. A inclusão de uma exposição de Joshua Benoliel na PhotoEspaña 2009 afirma-se como um excelente cartão de visita da fotografia portuguesa.  

sexta-feira, 5 de Junho de 2009

Uma imagem, um autor - Sara Santos

A ideia inicial foi envolver a modelo num tecido preto de forma a fundir-se com o fundo, também preto. A harmonia das linhas do corpo justificaram um outro olhar que, utilizando fitas pretas, mostram partes do corpo mas que deixam antever algo de desconhecido, um corpo que simultaneamente se mostra e se esconde, se assume destacando-se pela luz, mas que se esconde por estar de costas e pela fusão das fitas pretas, com o fundo também negro. A luz teve de ser suave e lateral, para dar um ar natural e fazer com que as fitas se misturem com o fundo.

Sara Santos

quarta-feira, 3 de Junho de 2009

BES Revelação

Decorrem até 30 de Junho as candidaturas à 5ª edição do BES Revelação, numa iniciativa que reúne o Banco Espírito Santo e a Fundação de Serralves. O regulamento pode ser consultado em www.bes.pt/besrevelacao ou www.serralves.pt . Recorde-se que o prémio, dedicado à Fotografia, se destina a apoiar e promover jovens artistas, sendo o tema livre. Os artistas seleccionados recebem uma bolsa de produção e terão os seus projectos expostos em Serralves.

Do hotel às hortas


Uma horta no meio da cidade? Porque não? Pode parecer estranho, quando apenas condescendemos num modesto jardim no meio da imensa floresta de prédios. Mas a verdade é que continua a fazer todo o sentido uma horta no meio da cidade, já que constitui um meio de preservação do solo enquanto elemento vivo, é fonte de rendimento, é uma forma de ocupação dos tempos livres, é um espaço de sociabilidade criando laços de vizinhança e de entreajuda e é, ao mesmo tempo, uma forma de humanização do tecido urbano.

Vem isto a propósito da exposição Do hotel às hortas: caminhos de crise e identidade que Ângela Ferreira apresenta do Museu do Neorealismo, em Vila Franca de Xira.  A exposição começa no átrio do Museu com Hotel da Praia Grande, em grande formato, coerente com uma estética moderna que, segundo a apresentação que nos é feita, traduz simultaneamente uma imagem clara e enigmática, reunindo numa só imagem duas encenações originárias de épocas distintas. Na sala do rés-do-chão Ângela Ferreira apresenta-nos as hortas enquanto espaços sobreviventes de uma cultura rural na vida das cidades, espaços não poucas vezes ilegais ou tolerados na ordem do caos citadino, lugares de passagem que o catálogo chama muito acertadamente de não-lugares. O olhar moderno e comprometido da fotógrafa leva-nos a olhar para uma realidade escondida (e humana) das nossas cidades.

A artista, que representou Portugal na Bienal de Veneza, em 2007, coloca-nos com este trabalho perante a questão  do espaço e do tempo, desconstruindo significados que a vida agitada da cidade nos leva a aceitar acríticamente. As imagens, bem impressas e bem distribuídas na sala, fazem-nos pensar. Que melhor objectivo haveria para uma exposição de fotografia, enquanto forma de expressão de um artista?

terça-feira, 2 de Junho de 2009

Blographo


Chama-se Blographo e é um novo blogue, colectivo, dos fotojornalistas do jornal Público, criado com a intenção de mostrar as melhores imagens feitas ao serviço do jornal, de uma forma criativa e eficaz na comunicação. Este blogue pode ser acompanhado em blogs.publico.pt/blographo/, tendo o Público como fotojornalistas Adriano Miranda, Nuno Ferreira Santos, Rui Gaudêncio, Enric Vives-Rubio, Manuel Roberto, Paulo Pimenta, Daniel Rocha, Paulo Ricca, Miguel Madeira, Pedro Cunha e Nélson Garrido.

segunda-feira, 1 de Junho de 2009

Barreiro


Foi inaugurada no passado sábado, no Auditório Augusto Cabrita, no Barreiro, a exposição do projecto “Olhar o Barreiro ...  de outro modo”. Ali se pode ver um conjunto de olhares contemporâneos, de diferentes fotógrafos, marcados por uma visão de autor, onde se pretende transmitir ideias e sentimentos usando a fotografia como ferramenta. Ali se pode encontrar um conjunto de fotógrafos que, a trilharem um caminho de constante e continuada pesquisa estética, podem vir a desenvolver um percurso artístico bastante interessante. O grupo enquanto colectivo encara a execução de outros projectos em colaboração com a Câmara local, nomeadamente na área do património industrial e ferroviário, o que só por si é significativo e demonstra que valeu a pena todo o esforço de formação, de execução e de apresentação pública deste projecto. 

sexta-feira, 29 de Maio de 2009

Uma imagem, um autor - Paulo JR Simões

Uma boa imagem fruto do acaso, é uma sorte.

A sorte também faz parte do trabalho de um fotógrafo, mas a coerência do seu trabalho não pode viver apenas disso. Encontrar um conceito, um fio condutor que percorra uma série de fotografias num trabalho, transforma a sorte em algo bem mais ao nosso alcance.

A definição de um conceito e a planificação de um trabalho, podem fazer a diferença entre o sucesso de uma sessão fotográfica e a desmotivação do resultado final. A planificação no espaço e no tempo tem o condão de me dar mais tranquilidade e segurança no momento de realizar as imagens. Permite-me ter mais tempo para me preocupar com os pormenores.

Neste trabalho específico, ficou definido que as imagens daí resultantes deveriam "fugir" à ideia do nú pelo nú, dando assim origem ao Conceito - "Ecce Homo Mater" sob a forma de díptico.

Conceito: A Mulher banida pela Igreja católica que lhe retirou todo o protagonismo ao  longo  de séculos, autorizando--lhe apenas o papel de mãe "desse homem" .

Equipamento. Hasselblad com filme ILFORD HP5 400 P&B

Paulo JR Simões

terça-feira, 26 de Maio de 2009

Olhar o Barreiro ... de outro modo


O projecto “Olhar o Barreiro ... de outro modo” nasceu de um conjunto de workshops promovidos pela Câmara Municipal do Barreiro com o apoio técnico da APAF – Associação Portuguesa de Arte Fotográfica. Não se tratou de produzir apenas uma exposição com imagens aleatórias, mas antes de dar formação e, a partir desta, criar um conceito que possibilitasse a emergência de um conjunto de olhares sobre o Barreiro, coerentes esteticamente, conscientes na abordagem e na forma.

Definido o conceito inerente ao que cada um sente pelo espaço e pelo movimento que todos os dias dá uma vida nova á cidade, foi altura de partir para o terreno e traduzir as ideias em fotografia. Não se pretendeu fazer imagens bonitas do tipo “postal ilustrado”, mas antes traduzir sentimentos e ambientes tão irrepetíveis e pessoais quanto passageiros no tempo. Neste sentido, a presente mostra assentou sobre a relação da cidade com o rio, na presença estruturante do caminho de ferro, no ambiente fabril, mas também no multiculturalismo, nas ambiências dos bairros de tradição operária, do comércio tradicional ou das profissões em vias de extinção.

É um trabalho que nasceu. Por isso é um trabalho inacabado, apenas e só o início de um longo caminho, sob o ponto de vista artístico. É também um trabalho que emergiu de um conjunto de vontades, de vontades de fazer mais e melhor fotografia, planeada, pensada, de que se espera ver frutos num futuro, quiçá em revistas, em jornais ou numa parede de uma galeria. Os autores deram mostras de iniciarem este caminho ao discutirem as imagens, ao repetirem os mesmos ângulos ou outros novos, até obterem a imagem e o sentimento que pretendiam. Estão também de parabéns porque, sabendo que estavam a iniciar um novo caminho, se predisposeram a trabalhar sem limites. Por isso estão de parabéns, como o está a Câmara Municipal do Barreiro, ao apoiar esta iniciativa, da qual se espera, saía um grupo de trabalho dedicado à fotografia, enquanto projecto pensado e sólido. A exposição dos trabalhos inaugura sábado, dia 30, no auditório Augusto Cabrita, no Parque da Cidade.

segunda-feira, 25 de Maio de 2009

Batalha de Sombras


Está patente, até 14 de Junho, no Museu do Neorealismo, em Vila Franca de Xira, a exposição Batalha de Sombras. Esta é, em primeiro lugar, uma exposição pedagógica, essencial a todos quantos querem fazer fotografia para além da vulgar imagem de consumo rápido. É uma exposição que nos leva a reflectir sobre um momento da fotografia portuguesa com uma multiplicidade de caminhos estéticos então vividos.

Batalha de Sombras começa pelo salonismo, com a sua herança naturalista, onde marcam presença os foto-clubes, também eles uma herança do final do século XIX. A paisagem, tema recorrente neste género, segue uma tendência oitocentista com os seus apelos a uma luz melancólica, a paisagens simultaneamente poéticas e ingénuas e a céus dramáticos, que António Paixão tão bem soube interpretar (roupa a secar, década de 50), mas que também encontrou seguidores em João Martins, Varela Pé Curto ou Adelino Lyon de Castro. A par do salonismo podemos também olhar para as opções surrealistas da época, com a sua subversão dos valores culturais vigentes, autónomas dos circuitos fotográficos então predominantes, enveredando por uma linguagem abstracta, onde se nota a influência de trabalhos de Man Ray, muito mais recuados no tempo, prova de um certo atraso estético com que essas imagens se reflectiam na fotografia portuguesa. Também por ali se pode ver a força do movimento realista e da sua importância político-ideológica em imagens marcantes de sentimento e atentas às condições de vida das classes mais desfavorecidas e onde ressaltam nomes como Adelino Lyon de Castro, Franklin Figueiredo ou Varela Pé Curto (viúva da Nazaré). A exposição termina com a fotografia humanista, um outro caminho que a fotografia portuguesa da época experimentou, ainda que apenas devidamente reconhecido muitos anos mais tarde, através da Galeria Ether e dos Encontros de Fotografia de Coimbra, onde marcam presença Vítor Palla, Costa Martins, Gérard Castello Lopes, Carlos Afonso Dias, Sena da Silva ou Carlos Calvet. Louvável esta visão ampla que preside à exposição, onde está presente uma multiplicidade estética, por vezes reflectindo conflitos, num país, apesar de tudo, fechado e dotado de uma cultura fotográfica pouco dada ao debate.

A exposição, comissariada por Emília Tavares, é apoiada de um bom catálogo, bem organizada sob o ponto de vista arquitectónico e fotográfico, neste caso, organizada em grandes blocos, com autores e imagens bem seleccionados sob o ponto de vista exemplificativo de cada uma das orientações estéticas. Com um ritmo de montagem interessante e dotada de textos explicativos claros e objectivos, falha apenas no enquadramento do salonismo na política cultural do Estado Novo, por onde passa de forma mais superficial. É certo que no catálogo, com textos de excelente qualidade, este período é dissecado de forma exaustiva e também é verdade que não se pede o mesmo na exposição, mas a informação poderia ser um pouco mais completa neste período, especialmente para quem não adquira o catálogo. A exposição é ainda apoiada por um interessante apoio documental de livros e revistas, que ajudam a compreender o meio fotográfico da época. Refira-se que estas imagens, que integram a Colecção de Fotografia do Museu Nacional de Arte Comtemporânea – Museu do Chiado, foi iniciada em 1999, com a doação das obras fotográficas de Fernando Lemos, um dos nomes do surrealimo da fotografia portuguesa, doação essa feita pela A. T. Kearney, Portugal.

Por último uma palavra para o Museu do Neorealismo e para o seu serviço educativo que, com base num peddy paper conseguiu pôr crianças e adultos a olhar para as fotografias à procura de um nome ou de um pedaço de uma imagem. É um contributo para uma relação estreita entre o público e a imagem fotográfica, é uma forma de valorizar a fotografia e é  também uma das formas com que se pode ensinar a olhar para a Fotografia. 

 

quinta-feira, 14 de Maio de 2009

Uma questão de cultura

A cultura tem de ser assumida como pilar de um desenvolvimento integral e sustentado do país, o que implica uma orientação política clara e com objectivos perfeitamente definidos, com isso optando por uma definição sobre os modelos de gestão a implementar, os meios necessários e os públicos a atingir. Vem isto a propósito de um excelente artigo, publicado no jornal Público, onde um conjunto de personalidades ligado à cultura manifesta o seu incómodo perante a inépcia, a burocracia ou simplesmente a desorçamentação a que o sector está votado.

Vivemos hoje num mundo extremamente competitivo onde a qualificação profissional, a educação e a cultura são investimentos fundamentais. Os portugueses só terão melhores salários e poderão fazer com que o seu nível de vida se aproxime dos padrões europeus se cada um, em conjunto com os poderes públicos, olharem para a cultura como um investimento de médio prazo. Um trabalhador com formação académica e cultural será sempre um trabalhador mais produtivo e mais bem remunerado que outro que não a possua. Por outro lado, há que exigir do Estado políticas culturais com continuidade e vividas pela sociedade civil, políticas essas que devem constituir a emergência de uma articulação entre os vários serviços estatais.  Por isso apoio o “magalhães”, por isso entendo “as novas oportunidades” como louváveis, mesmo com todas as limitações que lhe são inerentes. Para que exista consumo cultural há que criar condições. Há que pensar cada vez mais na profissionalização das actividades culturais, com todas as consequências económicas que daí advêm, ainda para mais tendo em conta que são as iniciativas de carácter pontual que, pela sua frequência e dimensão, permitem a invisivel formação de técnicos e programadores culturais. Não nos esqueçamos de que a cultura é vista por muitos países como uma opção estratégica onde a política externa no plano cultural tem um valor económico e político de relevo.  Exemplo disso foi a predominância da lingua francesa em determinado momento histórico, e da lingua inglesa, hoje.

Tudo isto a propóstito de cultura e... naturalmente, de fotografia, um sector onde cada vez mais são atropelados os mais elementares direitos de autor, incluindo por entidades ligadas ao Estado, uma área ignorada quando se fala da extensão do período de vigência dos direitos de autor dos artistas, uma actividade onde o ensino artístico corre ao sabor das boas vontades, onde os departamentos estatais a ela ligados afogam os projectos em burocracia, quando não há muito que se demitiram de estimular o aparecimento de novos valores ou têm um percurso de iniciativas errático e incoerente. Afinal, uma questão de cultura.

segunda-feira, 4 de Maio de 2009

Grátis - máquina fotográfica + formação

Só nesta semana que passou recebemos três regulamentos de concursos de fotografia. Até aqui nada de novo. O que é novo, ou melhor começa a deixar de ser novo, é a falta de respeito pelos fotógrafos. Às vezes essa falta de respeito é tanta que as entidades em causa bem podiam despedir os seus Departamentos de Relações Públicas e de Imagem. O primeiro destes regulamentos que recebemos era da Câmara Municipal de Ílhavo, tinha como tema “Olhos sobre o Mar” e afirmava no seu ponto 18 que “todos os trabalhos recebidos ficarão a ser pertença da organização” que se reserva do direito de impressão, reprodução ou publicação. Pouco tempo depois tomámos conhecimento da 5ª Maratona Fotográfica da Água, promovida pela EPAL e cujas inscrições se realizam (imagine-se) no Gabinete de Imagem e Comunicação da EPAL. Também lá está, no artº 6º - 1 que “ todos os negativos e fotografias (incluindo as digitais) ficarão propriedade da EPAL – Empresa Portuguesa das Aguas Livres SA, podendo ser utilizadas em publicações da Empresa”. Hoje recebemos mais um destes concursos, o da Feira de S. Mateus, em Viseu. Para não variar “a organização reserva-se no direito de utilizar os trabalhos distinguidos”. Afinal trata-se de um prémio ou de uma aquisição que um número indeterminado de imagens, que torna o seu preço unitário irrisório e passível de todo o tipo de utilizações? Na verdade está tornar-se mais compensador organizar um concurso de fotografia do que contratar um fotógrafo, com a vantagem de se dar um ar de "preocupação cultural". Um dos organizadores até teve a lata de nos informar que hoje, com o preço das máquinas digitais, é mais barato fazer uma fotografia, logo é justificada a utilização das imagens por quem dá o “prémio”. Direitos de autor é algo de desconhecido e o conceito e a mensagem, que são inerentes a qualquer trabalho, devem constituir algo de esotérico. Deduz-se também que quem concorre teve a máquina como oferta, junta com algumas objectivas e quanto á formação, ninguém precisa, ou paga isso – os livros são grátis, as visitas a exposições são dispensáveis e a aprendizagem é um dom com o qual já se nasce. Devem estes organizadores julgar que somos todos estúpidos. Só pode.

terça-feira, 28 de Abril de 2009

Centenário da República


A Comissão Nacional para as Comemorações do Centenário da República, a Direcção-Geral de Arquivos e o Centro Português de Fotografia vão assinar um protocolo de colaboração com o objectivo de preparar e organizar o que será uma das principais iniciativas do programa de Comemorações do Centenário da República. Através do protocolo a assinar dia 29, o Centro Português de Fotografia cederá à Comissão Nacional parte da sua área expositiva na ex-Cadeia da Relação para a instalação da Exposição do Centenário da República.

O núcleo do Porto da “Exposição do Centenário da República" será dedicado à temática do republicanismo e da resistência, evocando o período que decorre desde o Ultimatum e a revolta republicana do Porto, em 31 de Janeiro de 1891, até ao 25 de Abril de 1974. A Exposição, concebida com a consultadoria de Simonetta Luz Afonso, é comissariada por Manuel Loff (Faculdade de Letras da Universidade do Porto) e por Teresa Siza.


sexta-feira, 24 de Abril de 2009

Arquivo Universal


Ir Ir ver a exposição Arquivo Universal, presente no Museu Berardo, em Lisboa, é fazer uma visita à História da Fotografia nos seus 170 anos de existência. Ali se pode encontrar uma multiplicidade de discursos artísticos reflexo de movimentos estéticos, de atitudes culturais ou de estádios sócio-políticos. É, na realidade, uma  extraordinária exposição, complexa na apresentação e simultaneamente uma excelente lição de fotografia.

A exposição analisa a noção de documento fotográfico ao longo da História, dando-nos múltiplas visões não apenas da ideia de documento, mas também da utilização da fotografia enquanto tal. Se é verdade que a exposição abre com um momento histórico preciso:- o “tratamento criativo da actualidade”, definido por John Grierson no final dos anos de 1920, que funda o género documental tão presente na fotografia e no cinema do século XX, também é verdade que logo somos levados a conhecer a génese desse movimento com as imagens paternalistas de Lewis Hine, ou nos deparamos com respostas estéticas como o foram a representação dos trabalhadores como forma de expressão política próxima da Internacional Comunista, bem presentes quando olharmos para a pose imponente dos retratados de Alexander Rodchenko ou para os planos de Boris Ignatovich. Realce para o facto de a exposição não estar concebida para apenas visualizarmos as imagens nas paredes, como quem olha para o passado. Na realidade temos de as viver. Passamos entre as imagens projectadas, desviamo-nos das mesas, debruçamo-nos sobre elas, olhamos, lemos as legendas, deparamo-nos com uma variedade de revistas e livros expostos. No caso das imagens de Roger Fenton temos até de levantar a protecção das imagens para as visualizar, num gesto que se torna um misto de temor e respeito pelo passado, pelo documento. Destaque também para a presença da Life, um marco incontornável na História do fotojornalismo. O seu primeiro número foi publicado a 23 de Novembro de 1936, sendo influenciado pelo jornalismo alemão do início dos anos 30, tendo inclusive contratado alguns fotógrafos alemães que haviam fugido para os EUA. A Life, fundada por Henry Luce, com reportagens inteiramente compostas por imagens veio, por sua vez, a influenciar muitas outras publicações posteriores, como a Time, saída dela em 1939 ou, mais tarde a francesa Vu . A qualidade do fotojornalismo norte-americano tem as suas raízes em revistas como a Life, sendo inteiramente justa a sua presença nesta exposição.

A propósito do uso da imagem, dizia Elisabeth McCausland, em 1939, que “queremos a verdade”. É isso também que nos leva a inquirir e a ser cúmplices com as imagens de August Sander, de sentir a tristeza nos rostos de Eugen Heilig ou cruzarmo-nos com a crueza da vida nas imagens de Dorothea Lange. A verdade dos espaços e pessoas registados por Eugène Atget, onde o património urbano e a sua memória se assume na sua plenitude, ou les petits frères au lait,  de Robert Doisneau, em 1932, como que antecipando a fotografia humanista do pós-guerra. Muito interessante também a questão das exposições em espaços públicos entre 1926, com El Lissitzky, e 1955, com a exposição The Family of Man, apresentada no MoMA de Nova Yorque. Isto fez-me pensar na pobreza cénica das exposições realizadas em Portugal durante este período mas fez-me pensar também que ali cabiam as imagens de Mário Novais, referentes à exposição do Mundo Português, em 1940. Esta viagem a outras épocas é marcada na sala seguinte pelas imagens de Juan Rulfo, de Vítor Palla e Costa Martins com a sua Lisboa, Cidade Triste e Alegre ou com a magnífica Praça do Comércio de Sena da Silva.

A introdução da fotografia na imprensa mudou a visão do mundo pelas massas e alterou o discurso dos protagonistas. E se esta exposição é uma viagem à História dos acontecimentos, também não deixamos de salientar as magníficas paisagens de Timothy O’Sullivan que, ainda que em pequena escala, nos fazem sentir diminutos naqueles espaços, tendo ainda hoje seguidores estéticos na interpretação da relação do espaço com o observador. Destaque ainda para a modernidade do olhar de George Barnard (1866) presente na secção de Missões Fotográficas e invocando a noção de inventário patrimonial, ou ainda as magníficas fotografias de Charles Marville, com imagens do século XIX que nos fazem pensar nos dias de hoje. E por falar nos dias de hoje lá está o olhar cinematográfico de Robert Frank ou a contemporaneidade de Stephen Shore com a fotografia a deixar de ser algo inquestionável.

Pela extensão da exposição, esta é uma exposição para desfrutar as imagens, sem tempo pré-determinado. A riqueza e variedade das propostas fotográficas apresentadas lembra-nos que a imagem fotográfica é uma emanação cultural da sociedade, reflectindo-a ou contestando-a, espelho de momentos históricos específicos. Por isso esta é uma exposição para ver, sentir e viver. Até 9 de Março.

quinta-feira, 23 de Abril de 2009

Pente 10


A galeria Pente 10 celebra o seu primeiro ano de existência no próximo dia 29 de Abril. Um ano de actividade onde ressalta a preocupação em expor projectos com qualidade e mostrar bem os trabalhos. O resultado traduz-se também na afirmação desta galeria, não apenas internamente, mas também no mercado internacional. Recorde-se que a Pente 10 foi admitida na próxima edição da Paris Photo, um dos mais importantes eventos fotográficos que, assinale-se, está agendado entre 19 e 22 de Novembro no Carrocel du Louvre, tendo como mote a fotografia árabe e iraniana. Quanto à Pente 10 lembramos-lhe que fica na Travessa da Fábrica dos Pentes nº 10, às Amoreiras, em Lisboa, estando aberta de terça a sábado, das 15 às 20 horas. Presentemente tem patente a exposição The Prison Within, de Alexandr Glyadyelov. 

domingo, 19 de Abril de 2009

Imagens Imaginárias


Certa vez, numa das minhas explorações fotográficas, fui surpreendido por um homem simples, que considerei fotogénico. Perante a minha pergunta se lhe podia tirar uma fotografia, respondeu-me "Ó amigo! Esteja à vontade! Eu entendo a fotografia!... A fotografia é quando uma pessoa vê uma imagem real e essa imagem lhe chama a atenção para fazer outra imagem...". Nunca mais esqueci aquela frase. Um homem simples revelou-me em poucas palavras a essência da fotografia. Uma imagem produzida a partir de uma imagem real. Brilhante! Nunca soube o nome de tal filósofo, de modo que não o poderei incluir neste texto. Mas aquela frase não me largou mais...

Repare-se na expressão "imagem real". Não é referida a realidade, mas antes, "uma imagem real"... Esta pequena/grande diferença, faz toda a diferença, já que, quando observamos algo, seja o que for, não é de realidade que falamos, mas da nossa projecção mental sobre ela. No momento em que observamos, começamos a construir a nossa imagem... Na verdade, a verdadeira construção começa bem antes, já que transportamos para a nossa observação, as nossas memórias, gostos e referências culturais. 

Carregados com toda essa informação, começamos a imaginar a imagem. Imaginar, aqui com duplo sentido, sendo que um deles dirá respeito ao imaginar cognitivo e, o outro, a todo o processo da realização da imagem, ou seja, o imaginar perfomativo. Será, então, esse duplo imaginar o responsável pelo surgimento da imagem fotográfica. Mas o processo não pára por aqui...

Depois, as imagens geram outras imagens...

Tal como acontece com a "imagem real", quando vemos uma determinada imagem, nunca a vemos simplesmente como ela é, mas sempre comparada a referências de outras, fruto das tais memórias a que já me referi... Por sua vez, após vermos uma imagem, essas nossas referências/memórias alteram-se, o que leva a que vejamos as imagens seguintes (que poderão ser as mesmas) de outra forma... No fundo, quando vemos uma imagem, imaginamos outra. Ou melhor, em bom rigor e tal como acontece na realidade, não vemos, de facto, a imagem, mas uma sua representação ou, por outras palavras, a imagem da imagem. Eu chamo a essas imagens (as imagens que imaginamos) precisamente "imagens imaginárias"... Depois, munidos dessas "imagens imaginárias" podemos produzir ainda outras imagens, essas já "imagens imaginadas" (porque já realizadas), sendo esse um processo evolutivo em espiral. Assim, e agora de forma mais completa, ao vermos uma imagem fotográfica, não vemos somente "uma imagem imaginária". Vemos sim, uma intrincada conjugação entre a "imagem real", a "imagem imaginada" do autor e a nossa "imagem imaginada". Uma autêntica "carga imaginária", portanto... 

Depois, ao produzirmos as nossas próprias imagens, com essa "carga imaginária", remisturamos tudo novamente e acrescentamos-lhe ainda mais "carga". Desta forma, as imagens reproduzem-se, num processo não muito diferente (se apenas considerarmos os aspectos semânticos) da reprodução da vida. No caso das imagens obtidas por processos fotográficos a analogia com a vida torna-se mais evidente, porque as imagens assim produzidas, partem da vida, das suas manifestações e condições de sustentação. E quando geram outras imagens, voltam a recolher da vida a matéria prima para a sua construção. Esta reprodução de imagens é, assim, infinita. Mas não só em termos físicos, materiais, já que ela tem ainda outra faceta, mais mental ou espiritual, que será a de nos levar a ver algo que não veríamos sem a sua existência. 

Será que uma simples imagem ("real" ou "imaginada") tem o poder de nos revelar uma realidade que não veríamos de outra forma? Como se tivesse um qualquer poder oculto capaz de nos "iluminar" ? Esta é uma pergunta que ainda me inquieta e para a qual não tenho resposta definitiva, a não ser... Sim, claro! pelo menos, algumas imagens fazem-no certamente.

Somente a título de exemplo, vejam-se as imagens de Steve McCurry... Por exemplo, o famoso retrato da rapariga afegã... Trata-se apenas de um retrato... Apenas? Aquele retrato revelou-nos uma cultura, uma condição de vida para a qual o comum cidadão do chamado "mundo ocidental" não estava, de modo nenhum, sensibilizado... Um retrato, apenas, mudou esse paradigma. Aqueles olhos, aquela expressão..., o sofrimento, o encanto..., a vida e cultura de um povo ali espelhada. Numa única face. 

Muita tinta correu por esse mundo fora, a propósito desse retrato. Muitas consciências se abriram... O próprio Steve McCurry ficou como que prisioneiro daqueles olhos. Aquela imagem tinha de gerar imagens! E gerou. Após uma complicada e dispendiosa expedição, uma outra imagem surgiu... 

No entanto, os olhos que antes brilhavam, que desafiavam, são agora tímidos. Agora quase pedem para que não os maltratem mais. O que mudou? Nada... e tudo. Foi a vida, o que se passou entre as duas imagens. A primeira imagem  sugere-nos o quão dura pode ser uma vida. A segunda confirma-o, apresentando-nos essa dureza de forma brutal. Será que imaginávamos a segunda imagem antes dela ter sido realizada ("imaginada")? Talvez "imaginássemos" (no sentido de "imagem imaginária"), mas o acto de vê-la, foi verdadeiramente uma revelação. 

Muitos outros exemplos poderia ainda dar, mas não creio que nenhum outro pudesse ser tão ilustrativo. As imagens são isso mesmo:- uma representação de algo que as ultrapassa, que as transcende enquanto simples imagens em suporte físico. E ao mesmo tempo, uma autêntica revelação. Algo em nós muda, ilumina-se, quando vemos certas imagens.

João Paulo Barrinha

www.stevemccurry.com/main.php é o site de Steve McCurry que aconselhamos vivamente a visitar, como exemplo ilustrativo do texto acima publicado.     

40 anos depois


Passados quarenta anos após a crise académica de 1969, em Coimbra, a secção de fotografia da Associação Académica de Coimbra evocou essa época, salientando a importância que a secção de fotografia então teve. Tudo começou quando, numa assembleia, Alberto Martins interpelou o então presidente da República, Américo Tomás, no sentido de usar da palavra para reivindicar a liberdade de associação, a democratização do ensino e a representação dos estudantes nos órgãos da Universidade. A repressão que se seguiu desencadeou um vasto protesto, no qual se incluiu o boicote às aulas e aos exames. Foi a Associação Académica, através das suas múltiplas actividades culturais, onde se incluía a secção de fotografia, que manteve os estudantes mobilizados para a luta política, numa cidade onde milhares de estudantes estavam sem aulas. O teatro, a música, a poesia, a fotografia ou o cinema, entre outras actividades, contribuíram e muito para a força que este momento de viragem teve na vida académica e cívica do país.

sexta-feira, 17 de Abril de 2009

Periferias


Designa-se de Periferias o novo projecto do MEF - Movimento de Expressão Fotográfica, organizado conjuntamente com a Câmara Municipal de Lisboa. Com ele pretende-se reflectir sobre o percurso que vai de uma ideia/conceito até à altura de expor, passando por fases de maior entusiasmo, de hesitações e até de desilusões. Junta-se ainda a oportunidade de acompanhar a exposição de um catálogo que, de uma maneira crítica, enquadra as imagens e as regista para o futuro, sendo que os trabalhos a apresentar constituem uma opção de cada autor, seleccionados pelo valor do conjunto, pela coerência estética e pela incidência no tema proposto.  Mais informações sobre o regulamento podem ser vistas em www.periferias.mef.pt/ficheiros/regulamento.htm . A abordagem e reflexão inicial sobre o tema será incentivada através de um colóquio/debate a realizar em Junho com a participação de personalidades das áreas da imagem, ciências humanas e intervenção social.  

quinta-feira, 9 de Abril de 2009

Edgar Martins vence o prémio BES Photo


Edgar Martins foi o vencedor do prémio BES Photo, um dos mais importantes prémios de arte contemporânea em Portugal. O júri foi constituído pelos curadores Paul Wombell e Agnès Sire e ainda pela artista plástica Helena Almeida que, recorde-se, foi a vencedora da primeira edição do BES Photo. Segundo o júri, a escolha de Edgar Martins como vencedor resulta da "coerência e da consistência do trabalho desenvolvido pelo artista, critérios patentes na forma como seleccionou e apresentou as obras em exposição". da mesma forma, o júri valorizou "o diálogo estabelecido entre as séries de obras escolhidas, bem como a percepção e o aproveitamento do espaço expositivo na instalação das fotografias", demonstrando com isso que uma exposição é um todo, bem mais do que as obras expostas, que envolve espaço, iluminação, disposição e ritmo das obras, entre outros aspectos.

Edgar Martins, nascido em Évora e a viver em Inglaterra desde 1996, fez parte da sua formação em fotografia no London Institute e no Royal College of Art. Foi a sua exposição Topologies, realizada no Centro de Artes Visuais, em Coimbra, que lhe deu acesso à selecção para o prémio BES Photo. Nunca deixando de realçar o rigor e a coerência do trabalho de Edgar Martins, este prémio afigura-se como um corolário merecido pela sua forma de olhar a Fotografia. Sobre este trabalho diz Edgar Martins, em entrevista à revista L+arte deste mês, que ele "recria o modo como experienciei estes espaços fotograficamente. Fala sobre a perda de controlo, sobre periferias e abre um novo caminho, permitindo novas passagens e transferências entre a realidade e a sua imagem, entre formas de experienciar a imagem, que vão além do visual". Neste prémio, o júri sublinhou ainda "a diversidade das técnicas utilizadas pelo artista, bem como o processo e o propósito do trabalho inédito apresentado".

A fotografia pode levar-nos a questionar conceitos e ideias derivados da nossa experiência, seja ela do domínio prático ou teórico. As imagens de Edgar Martins abrem-nos as portas para um campo de interrogações que cruzam a fotografia com outras formas de expressão artística, mostrando-nos um mundo novo, acessível apenas a quem faz da sua vida um  campo de reflexão e não a quem de forma acrítica vive o seu dia a dia. Só por isso, este prémio BES Photo representa um momento de cultura e de cidadania que vale a pena sublinhar. 

Refira-se ainda que os trabalhos dos três finalistas do prémio BES Photo, André Gomes, Luís Palma e Edgar Martins, podem ser vistos no Museu Berardo até 17 de Maio. Breves declarações dos autores podem ser vistas em www.bes.pt/SiteBES/cms.aspx?plg=DF832F21-080F-486E-94D6-D59AB9593ADE

quarta-feira, 8 de Abril de 2009

Movimento de Expressão Fotográfica



Fiquei agradavelmente surpreendido quando, há dias, estava a ver alguns trabalhos dos alunos do MEF - Movimento de Expressão Fotográfica. Eram trabalhos referentes a um workshop de fotografia de nú, estéticamente muito diferentes do que por aí se ensina em workshops de nú, onde o que se busca é a espectacularidade dos corpos, do nú pelo nú. Aqui há um trabalho de educação visual, de pesquisa estética e de produção deveras interessante. 

Quem acompanha o trabalho do MEF sabe que estas imagens não surgiram do nada. Elas são consequência de um posicionamento fotográfico coerente, inovador e irreverente, ancorado numa formação técnica e estética que constitui uma imagem de marca deste grupo, a trabalhar desde 2000. O MEF pretende, com a sua actividade, criar uma plataforma de modo a que os seus associados possam usufruir de oportunidades de expor e divulgar os seus trabalhos, ao mesmo tempo que, numa atitude cívica de relevo, está envolvido em projectos com instituições e associações ligadas à área da acção social, visando públicos que, por norma, tendem a não usufruir das mesmas oportunidades que o cidadão comum, como é o caso de pessoas portadoras de deficiências visuais, motoras e mentais, ou pessoas social e economicamente carenciadas. Com isso o MEF procura contribuir para um desenvolvimento da fotografia enquanto forma de expressão e ao mesmo tempo fornecer oportunidades de formação fotográfica a quem a ela não tem acesso, fazendo-o de forma digna e nunca numa visão paternalista. 

Persegue assim um objectivo, utópico e nobre, de promover o gosto pela fotografia junto do grande público, mas um gosto baseado no conhecimento, muito para além do "gosto" ou "não gosto" de uma dada imagem, onde todos os cidadãos dispõem das mesmas oportunidades, sejam elas de acesso à formação, seja do contacto com o material fotográfico mais diverso. Para quem gosta de fotografia é de dar atenção aos projectos que desenvolve. 

segunda-feira, 6 de Abril de 2009

1ª Maratona Fotográfica FNAC Chiado

Isto de promover iniciativas várias no campo da fotografia tem muito que se lhe diga, até a incoerência no trabalho realizado. Deparei-me há dias com o regulamento da 1ª Maratona Fotográfica FNAC Chiado. Um regulamento pouco original já que se trata de uma (quase) cópia do regulamento da extinta Maratona Fotográfica de Lisboa, iniciativa conjunta da Câmara Municipal a da Associação Portuguesa de Arte Fotográfica e, que me lembre, a FNAC nunca apoiou. É no mínimo de mau gosto (quase) copiar o regulamento e apresentá-lo como iniciativa própria. Mas isso nem é a pior coisa deste regulamento. O pior é ele dar prémios que não são prémios, ou melhor, são compras leoninas sem qualquer respeito pelos autores. Dizer que os participantes têm de suportar eventuais prejuízos que a FNAC possa ter em virtude da violação de direitos de terceiros é esperado porque está na lei, e pode ser pedagógico pela aplicação da legislação referente ao Direito à Imagem. Mas dizer que a propriedade do suporte material das imagens é pertença da FNAC é algo a que nos últimos tempos nos habituámos a ver por esse país fora, no intuíto de se ter um conjunto barato de imagens para fazer delas o que se quiser. Ainda que a lei permita alienar os Direitos de Autor e Direitos Conexos Emergentes, no regulamento, a FNAC ao reivindicá-los para si está a servir-se do trabalho de terceiros. Também num desrespeito total pelos direitos do autor, que não são só morais, a FNAC Portugal assume-se "no direito de utilizar e explorar a obra", podendo ainda "transmitir, total ou parcialmente, a título definitivo, tais direitos a terceiros, bem como conceder licenças, de carácter exclusivo ou não". Eventualmente esqueceram-se de ler o artº 165º da lei 114/91 e ainda que possam invocar o artº 15º da lei 63/85, não me parece uma imagem favorável para uma empresa como a FNAC. Como continuamos a falar de todas as imagens, premiadas ou não, a FNAC, num exemplo raro de respeito pela obra de um autor reserva-se no direito de "efectuar todas as alterações ou adaptações às imagens premiadas que entenda necessárias ou convenientes". Vá lá, menciona o autor sempre que a imagem seja utilizada, mesmo que alterada (ou adulterada). É verdade que a lei o permite em última instância (artº 15 da lei 45/85) e essa é uma matéria hoje discutida na Europa em termos de direitos autorais - a quem pertencem estes quando se cria algo a partir de uma outra obra?

Para quem nos habituou a tratar bem a fotografia, seja pelos livros que tem à venda, seja pelas exposições e fotógrafos que apresenta, seja pelos valores que projecta, este é um péssimo serviço que a FNAC presta à fotografia. Qual foi o iluminado Departamento de Marketing ou de Imagem que imaginou esta iniciativa? 

sexta-feira, 3 de Abril de 2009

Fotografia no Barreiro


Não podíamos deixar de destacar neste blog, assumidamente um espaço de opinião sem deixar de ser também informativo, a existência de um projecto fotográfico significativo, não apenas pelo que representa em termos de divulgação da fotografia mas, especialmente, pela forma como está a decorrer e de como se espera envolver a comunidade fotográfica da cidade do Barreiro.

Refiro-me a uma acção que a Câmara do Barreiro começou a desenvolver no Auditório Augusto Cabrita. Não se trata de uma exposição casuística, mas antes uma acção pensada para dar resultados com qualidade e continuídade. Uma acção que começou com uma exposição retrospectiva da obra de Eduardo Gageiro em simultâneo com um ciclo de workshops de conteúdo técnico e estético. A própria exposição constituíu um passeio pela História da Fotografia, ali se vislumbrando influências do construtivismo, do modernismo ou de outras facetas da fotografia portuguesa desde as décadas de cinquenta e sessenta. Aos referidos workshops segue-se uma fase de projecto que termina numa exposição. A lógica de continuidade e de formação estética que é inerente a esta acção faz antever que ali se estão a lançar as sementes para um futuro promissor, o que numa terra com fortes tradições fotográficas, é um desafio digno de registo.  

Emergentes 09


A organização dos Encontros da Imagem, que decorrem em Braga de 2 a 31 de Maio, convidou vários curadores, directores de museus e galeristas estrangeiros, a fim de conhecerem o trabalho de alguns fotógrafos portugueses, proporcionando-lhes com isso a divulgação do seu trabalho e a sua integração em circuitos expositivos transnacionais. Ao mesmo tempo, por cada dia de actividade, serão escolhidos os três melhores portfólios que irão ficar expostos até ao fim dos Encontros. Do conjunto dos seleccionados será premiado o Melhor Portfólio Emergentes 09 que será exposto na próxima edição dos Encontros de Imagem.

Esta é uma iniciativa que merece aplauso num meio onde a discussão de portfólios rareia mas, especialmente, pela possibilidade de internacionalização dos artistas portugueses. Como há dias aqui escrevemos, cada vez mais os artistas e as suas produções circulam em redes transnacionais. Para isso, a organização pede que a apresentação do portfólio seja feita em cd, que não exceda as 20 imagens, apresentadas em jpeg (72 dpi's) com um tamanho máximo de 1400 pixels no lado maior. O portfólio com a identificação deve ser dirigido à Direcção dos Encontros da Imagem - Campo das Hortas 35, 4700 - 421 Braga, até dia 30 de Abril. Mais informações podem ser vistas em www.encontrosdaimagem.com 

segunda-feira, 30 de Março de 2009

Intercâmbio artístico Lisboa-Budapeste

É uma boa ideia e uma oportunidade para os jovens artistas até aos 30 anos. No âmbito do Acordo de Geminação e Intercâmbio de Artistas entre as cidades de Lisboa e de Budapeste, irão ser seleccionados dois candidatos para residências artísticas em Budapeste, durante o período de um mês.  Os interessados podem apresentar as suas propostas até 15 de Maio, devendo as mesmas integrar um portfólio actualizado. Um factor de selecção será o potencial de enriquecimento que a experiência trará aos participantes. Os interessados podem ver informação mais detalhada no site da APAF, em www.apaf.com.pt,ou solicitar mais informações para dpc.dga@cm-lisboa.pt  

sábado, 28 de Março de 2009

Uma reflexão sobre a fotografia

A Constituição Portuguesa refere que todos têm direito à Educação e à Cultura. O próprio Estado, para além da salvaguarda do património, assume também a responsabilidade de incentivar e assegurar o acesso de todos os cidadãos à Cultura e, através dela, corrigir as assimetrias existentes no país, tomando como exemplo a oferta de ensino artístico especializado ou a realização eventos culturais. Tudo isto vem a propósito do documento divulgado pelo ex-Ministro da Cultura, Manuel Maria Carrilho, em dois jornais de grande circulação, o Expresso e o Diário de Notícias, e a consequente resposta do actual ministro, no discreto Jornal de Negócios. Desde já confesso que fiquei chocado com a resposta, por vezes a roçar a má educação, ao chamar de tolos, parvos e ignorantes (o ministro não desmentiu o jornal) aos que discordavam dele. Como se o reflectir sobre algo e discordar não fosse um acto de cultura.

Se é verdade que as novas exigências, determinadas pelo público, pelas realizações em si ou por novas formas de encarar o património, determinam igualmente novas metas, também é verdade que implicam outras exigências orçamentais. Cada vez é mais difícil de fazer mais com menos dinheiro, a não ser que os que nos tenham antecedido sejam todos incompetentes. A verdade também é que há que romper com a má tradição dos governos, de olhar para a Cultura como o parente pobre entre os vários sectores que o compõem, onde o seu orçamento é o mais escasso de todos eles. Sem um orçamento condigno não há uma verdadeira política cultural. A Cultura tem de ser assumida como um pilar do desenvolvimento integral e sustentado do país. Hoje é um facto a desigualdade de acesso aos bens culturais, quer na fruição quer na criação, entre os portugueses do litoral e do interior, dos grandes centros e dos pequenos centros urbanos. A prazo, essa desigualdade transforma-se em desigualdade no acesso ou na compreensão da informação, que por si só será a razão de novas desigualdades económicas, culturais e, em última instância, sociais. Se é verdade que hoje é possível constatar uma maior frequência dos museus, exposições ou monumentos, por comparação com o verificado há uma década atrás, a verdade é que o público não se alargou significativamente, sendo básicamente o mesmo, apenas com ligeiras variações etárias e sociais e uma maior intensidade no consumo cultural. A ruptura deste espartilho passa não apenas por criar a aptência pela cultura nos portugueses adultos, mas também e principalmente, pela criação e fidelização de novos públicos, assim como pela criação de equipamentos de entrada, com resultados muitas vezes incompatíveis com o tempo das legislaturas.

A cultura é vista por muitos países como uma opção estratégica da sua política externa e, internamente, como geradora de riqueza económica em diferentes áreas. Como isto é um blog de fotografia, pensemos na projecção da fotografia portuguesa no exterior e no papel exercido por uma entidade que, pomposamente, se designa de Centro Português de Fotografia, integrado na estrutura do Ministério da Cultura. A descoberta de novos artistas está ausente da sua actividade diária, o apoio aos novos valores não o faz, a descoberta, aquisição e salvaguarda de novos espólios, é uma área hoje deixada às Fundações privadas, os prémios aos novos autores silenciosamente desapareceram. A sua actividade nunca se estendeu verdadeiramente para além do norte e do Porto em particular. A sua integração nos Arquivos (???) foi desastrosa e a sua actividade resume-se a mostrar enlatados ou a anunciadas produções de gosto e qualidade duvidosa, que nos fazem lembrar os jogos florais de há uns anos. E apesar disso a sua existência é necessária. A Europa de hoje é um mosaico de culturas cujas produções circulam em rede. É nestas redes que circulam exposições e co-produções, que podem incluir equipas transnacionais e é através delas que os criadores portugueses podem saltar fronteiras. A nossa fotografia não tem meios nem projecção. E não me venha o senhor Ministro chamar de ignorante, porque estou na fotografia há suficientes anos para saber dela o que o senhor ministro nunca saberá. 


quinta-feira, 19 de Março de 2009

Valentina 170167

Até ao próximo sábado, dia 21, está patente na Galeria Pente 10, em Lisboa, na Travessa da Fábrica dos Pentes, às Amoreiras, a exposição Valentina 170167. Para quem conhece desde há uns anos o trabalho de Manuel Luis Cochofel, sabe da sua procura constante, da sua pesquisa e experimentalismo, seja sob o ponto de vista técnico seja estético. Por isso não são de estranhar os caminhos seguidos, numa abordagem do retrato visto de duas formas distintas nos dois espaços expositivos da galeria. 

No primeiro piso temos um conjunto de 16 imagens, fruto da apropriação do autor, de imagens publicadas na internet em sites de procura de parceiro para um eventual matrimónio. Ali se podem ver retratos de um acentuado erotismo (logo o rosto que abre a exposição à esquerda), lado a lado com outros cuja harmonia das cores nos empurram para décadas passadas, ainda que saibamos serem recentes. Cada imagem parece encerrar uma história, pessoal e sentida, com a qual o fotógrafo se envolve. Por vezes, a sequência da montagem faz-nos lembrar um bloco de notas, comparável à finalidade massificada dos sites de origem. O autor soube escolher as imagens e soube compreender o ponto de vista de quem coloca ali a sua melhor imagem à procura de parceiro. Por isso, aquela imagem de uma coluna de fumo se torna moralmente perturbadora para todos nós. Para além da trama do monitor que une as imagens, aprisionando-as num mundo que nos parece longínquo e que nos afasta dos personagens, há uma harmonia de côr, junta com uma tristeza que atravessa olhares e expressões e com cenários que por vezes nos parecem parados no tempo, que nos atraem do princípio ao fim desta exposição. Algo nos faz lembrar a arte pop, seja pela composição, seja pela côr.

No espaço da cave continua o questionar do retrato por parte do autor. Já não o retrato no sentido mais óbvio do termo, mas do que pode constituir o retrato de alguém. É o mundo da sua Valentina, num retrato psicológico por si idealizado. É também um olhar muito contemporâneo, sendo disso exemplo a imagem do cavalo ou a força gráfica do viaduto. Este conjunto, segundo o autor, "remete-nos para as memórias, os anseios, as pessoas com quem a sua Valentina se cruzou, para os seus anseios e fantasias".

Se esta exposição é o mundo de Valentina, também é verdade que constitui uma janela para um mundo fotográfico que vale a pena explorar. Por isso vale a pena ir vê-la e conhecer melhor este autor, que mantém uma procura incessante pelo objecto fotográfico. 

quarta-feira, 18 de Março de 2009

mALdiTAS (im)Perfeições


Fica em Lisboa, a loja de fotografia de João Sousa Valles. Até aqui nada de novo, ainda que o espaço seja sedutor para quem tem paixão pela fotografia, com material que nem sempre encontramos na maioria das lojas. Mas, mais importante, é o espaço que a loja tem na cave que é concedido a jovens artistas. Ali está patente mALdiTAS (im)Perfeições, uma exposição com algumas notas interessantes de quem ainda está fra dos circuitos expositivos.

É apesar de tudo, uma exposição desequilibrada. Oscila entre a estética salonista e alguns olhares pessoais mais eruditos e muito bem conseguidos. Justificava-se uma melhor apresentação das imagens, assunto já velho nas nossas galerias.

Dos vários autores presentes há que destacar Vanda Foster da Silva, com um olhar sensível mas a necessitar de um maior domínio técnico. Destaque também para o olhar surrealista de Jaime Bahia, que surpreende para quem conhece os seus anteriores trabalhos. Armando Cardoso, muito clássico, como seria de esperar, mostra um conjunto que, ainda que bem executado tecnicamente, nos apresenta um "à espera de Godot" com soluções técnicas incoerentes com as restantes duas imagens que formam o conjunto. O trabalho mais consistente é o de Elsa Mota Gomes, utilizando muito bem a luz e a cor, optando por soluções técnicas adequadas, sendo disso exemplo a sensibilidade escolhida, e com isso conseguindo uma abordagem estética intímista e envolvente. Conseguindo captar o ambiente, poder-se-ia talvez equacionar a questão da escala das imagens apresentadas. Esta é uma autora a merecer uma melhor oportunidade. A propósito, onde está e o que faz neste momento o Centro Português de Fotografia? 

sábado, 14 de Março de 2009

As fontes discretas


Os inúmeros mestrados e doutoramentos que se vão efectuando no campo da fotografia não chegam a ser fontes de conhecimento, porque se mantêm no grupo restrito da acção académica e raras vezes, muito raras vezes, as teses são publicadas. O que, no limitado panorama nacional da publicação fotográfica é mesmo um pecado.

Seja esta dissertação de mestrado de Catarina Miranda, defendida já em 2006 na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, A Retratística em Portugal e a Introdução da Daguerreotipia (1830 - 1845)

Trata-se de um período fundamental, génese de muitas simplificações e determinante para todas as reflexões sobre a modernidade e adequação portuguesa ao progresso da fotografia amadora e profissional. Depois de Gisele Freund habituámo-nos a pesquisar e encontrar o testemunho de um ou outro desenhador que teria passado a usar o daguerreótipo, tudo inserido na difícil e obscura luta de interesses de um grupo profissional que sempre se manifesta com a evolução das técnicas. Com esta investigação detalhada entramos deveras no universo dos pintores e desenhistas, que de uma forma significativamente "iluminista" iam ensaiando e por vezes produzindo a série de maquinismos que facilitam a visão e a reprodução da Natureza e da figuração. E então o daguerreótipo insere-se numa busca profiada de uma máquina de representar que demonstra essa atitude tão comum da modernidade: a criação de máquinas, dentro do paradigma moderno da Física Mecânica e do progresso do Homem. Procura-se, de facto, o caminho da cópia e da individualização, é todo um mundo que se modifica económica, social e culturalmente. 

O trabalho divide-se em três partes, I - Antes da chegada da fotografia; máquinas de desenhar, espectáculos ópticos; II - A introdução da Daguerreotipia; III - A Retratística: Retratos; Miniaturistas; Daguerreotipistas. Fica esclarecido o mundo das máquinas de ver e de mostrar, máquinas ópticas, que vão surgindo para resolver o problema fundamental do Iluminismo, o conhecimento para todos, que se irá reflectir no elitismo dos construtores de autómatos continentais e na Revolução Industrial inglesa e flamenga e, naturalmente, na Enciclopédia: câmara obscura, câmara lúcida, silhueta, fisionotraço ou fisionipo, pantógrafo...

Numa época de todas as revoluções a imprensa elitista ou a mais popular dos papéis volantes explode em explicítações e quantidade. E é precisamente através da imprensa que este trabalho se levanta; Catarina Miranda pesquisa nesta literatura o fluir das invenções, das comunicações e dos hábitos. E então a dissertação transforma-se numa História de Mentalidades que se alimenta de uma História do trabalho (dos desenhadores e pintores aos impressores e especificamente aos litógrafos e o público-alvo para quem estes trabalham), numa História de costumes e hábitos em ciclo de mudança, numa História da aparência que irá caracterizar os dois últimos séculos. Vemos a evolução dos grupos sociais da burguesia a marcarem a presença da sua virtude e notoriedade pessoal substituindo a linhagem que unifica, vemos ainda um público imenso a acorrer aos espectáculos ópticos (como a narrativa do espectáculo de fantasmagoria de lanterna mágica, em 1800, na Rua Augusta, em Lisboa, quando do nascimento da infanta Dª Maria Francisca), sem que não deixem de se manter mesmo quando a daguerreotipia domina. E ficamos a saber da produção nacional destes espectáculos, dos temas escolhidos, da irrupção do gosto pelo património, pelas campanhas de Napoleão, pelo exotismo oriental.

A introdução do daguerreótipo é detalhada, o espanto pela perfeição, a divulgação reiterada na imprensa comum ou científica e a crescente vulgarização do conceito como informação, antes da sua prática por estrangeiros e portugueses. De forma minuciosa fica esclarecida a transição dos desenhadores, pintores e miniaturistas para a daguerreotipia; a lenta inserção no Portugal Pitoresco, o papel da galvanoplastia que então dominava o "parecer ser" nacional no início de quarenta e que dá um novo fôlego às imagens dos gravadores e essa individualização crescente que se verifica na selecção dos retratados, agora utilizando os retratos como publicitação de ideias (cartismo, cabralismo) e instituições.

A investigação põe em causa muitos dos velhos chavões que a nossa História da Fotografia foi repetindo e não deixa nunca de levantar argumentos contra afirmações que a consulta dos jornais invalida. Aqui e ali dão-se conta dos sucessivos inventos e adaptações portuguesas a metodologias conhecidas. Aprendemos que o interesse pela representação é profundo, que há um público numeroso para as sucessivas produções de desenhos impressos (reis, princípes, políticos, acontecimentos, artistas, cantoras de ópera, temas religiosos). E, com isto, também se aprende que o daguerreótipo, apesar da perfeição da reprodução, não respondia, pela sua tradução na xilogravura e, crescentemente, da litografia, à necessidade de possessão do público da imagem, que já existia com a divulgação quase popular do desenho. O que explica a manutenção deste na impressão e a aceitação repentina da reprodução fotográfica em papel nos finais dos anos cinquenta. 

Uma História da Fotografia é necessariamente global, imbrica nos inúmeros domínios do social e só assim nos faz entender o que representa. E, ainda, como lápis da Natureza a fotografia passa a filosofia do tempo e da vida interior do sujeito.

Maria do Carmo Serém
 

quarta-feira, 25 de Fevereiro de 2009

visionamento de portfólios

Iniciativa importante é aquela que a Kgaleria retoma a partir de 1 de Março. Na realidade, as iniciativas de domingo estão de regresso com a apresentação do trabalho da fotógrafa norte americana, a viver no Canadá, Lynne Cohen. Esta sessão inclui também um visionamento de portfólios, uma iniciativa de grande valor para quem quer debater as suas próprias imagens. A Kgaleria fica na Rua da Vinha 43 A, no Bairro Alto, em Lisboa, podendo ser contactada pelo telefone 213431676 ou pelo mail kgaleria@kameraphoto.com

terça-feira, 17 de Fevereiro de 2009

Jesus Never Fails


Imagine um dia de sol, agradável, com uma temperatura adequada e imagine-se a passear à beira do rio Tejo. Pare ali pelas bandas do Museu da Electricidade, a velha Central Tejo, entre e aproveite para ver uma boa exposição de fotografia, um excelente complemento do seu passeio. 

Está presente no Museu da Electricidade, até meados de Março, Jesus Never Fails de António Júlio Duarte. O primeiro impacto que sentimos é o de uma exposição bem apresentada e com imagens bem distribuídas no espaço. As imagens vivem nos espaços adequados, constituindo um exemplo de como se monta bem uma exposição. Não é uma montagem dotada de espectacularidade, mas é limpa e esteticamente adequada às imagens. Acresce ainda o facto de a exposição abrir com uma cuidada ficha técnica, algo que tão raramente vemos em muitas exposições. Há imagens que funcionam sózinhas de forma soberba e há imagens que só se adequam pela leitura de um conjunto. Tudo isto a demonstrar uma sensibilidade evidente. Aquela sequência de três imagens na parede da esquerda, logo à entrada da exposição, só resultam assim e ali. A imagem isolada logo à esquerda na entrada da segunda sala resulta de forma extraordinária naquela vastidão de parede branca. E isso são pequenas grandes coisas que constituem o todo de uma exposição. O mesmo acontece com a distribuição das imagens, com sequências onde predomina a linguagem urbana, a fusão dos espaços verdes com pessoas e objectos ou, noutra ainda, onde predomina a luz artificial, os tons tristes e onde o menos bonito se transforma em algo de belo. Sublinhe-se, na segunda sala, a grande sensibilidade (e simplicidade) demonstrada pela imagem dos pássaros sobre os vagões, ou o lado humano da escola feminina ou das crianças que brincam. Juntemos a isto o formato e a dimensão adequada para a linguagem estética assumida.

Como João Pinharanda escreve "o mais importante deste trabalho de António Júlio Duarte é obrigar-nos a olhar para imagens onde não reconhecemos a tranquila ilustração do já conhecido". Na realidade aquela não é a Índia, e particularmente Goa, do bilhete postal. É a Índia de António Júlio Duarte, sentida, já longe de Oriente - Ocidente, produzida há alguns anos atrás e apresentada nos Encontros de Coimbra. Já longe, porque mais madura e evoluída esteticamente, mas que tem a ver com o sentir do fotógrafo. Vê-se que ali há paixão e comprometimento por parte do fotógrafo. É por isso que António Júlio Duarte consegue transmitir-nos a ambiência dos locais, deixando-nos margem para divagarmos pelos nossos sonhos, sendo disso exemplo aquele interior logo a abrir a exposição, que nos transporta aos clubes privados dos tempos coloniais, ou aquela vigia que se encontra isolada na parede do lado esquerdo da segunda sala. Só fotografa assim um fotógrafo que se isola no seu mundo, que se apaixona pelos objectos e pessoas que o rodeiam e que sente a magia do local, transmitindo-nos, com isso, o sublime e a sua experiência pessoal. Vale a pena ir passear à beira rio e entrar no Museu da Electricidade para ver Jesus Never Fails.   

terça-feira, 10 de Fevereiro de 2009

Fogo Frio


Alexandra Lucas Coelho escreve que "não há um intruso nas fotografias de Duarte Belo. Ele vê como se ninguém estivesse a ver aquilo. Então é assim que as coisas são quando estão sozinhas. No vulcão dos Capelinhos as coisas estão antes de nós. O mar abriu um buraco negro e de repente coincidimos com uma paisagem que ainda não sabe da nossa existência. Dorsos altos com encostas cobertas de minerais, ocres, brancos, vermelhos, azuis. Ao meio dia, cega, de tanto brilho. Todos os dias o vento leva a sua parte. Nenhuma pergunta, nenhuma resposta. O lugar não fala e vai desaparecer. Então é assim que as coisas são quando estamos sozinhos". 

Nada melhor que este belo texto para caracterizar as imagens de Duarte Belo presentes na Kgaleria. São imagens com força e alma. Força porque quem olha para aquela imagem do mar dos Açores sente as ondas a rebentarem à sua frente. Alma, porque aquelas imagens do vulcão dos Capelinhos nos transportam até ao local, envolvendo-nos no abraço da mãe terra, quente e rude, onde em fundo espreitam verdejantes montes. São assim os Açores.

As imagens, inseridas na série Fogo Frio e captadas em 2007, mostram-nos um olhar leve e moderno, longe dos formalismos clássicos da paisagem, mas nem por isso menos cuidado ou revelador de um sentido estético menos apurado. Mostra-nos também o que o fotógrafo sentiu, diriamos até por aquilo de que o fotógrafo se apaixonou, em cada recanto retratado, num levantamento feito a convite da Câmara Municipal da Horta, cinquenta anos após a erupção dos Capelinhos, em Setembro de 1957. Numa dicotomia terra/mar, Duarte Belo consegue registar mais do que a beleza da própria natureza, exprimindo a sua própria opinião sobre a paisagem que fotografa, ao mesmo tempo que mantém uma coerência estética que já vem de anteriores trabalhos. É uma paisagem muito contemplativa, em que o fotógrafo observa e sente, não interferindo com o local, não participando, não adulterando. O fotógrafo é ali um espectador passageiro, num mundo que também é temporário. E esta é uma forma erudita de fazer fotografia.

Ao entrarmos na galeria respiramos espaço, o espaço das imagens mas também o espaço, profundamente branco, da galeria. Torna-se agradável ali estar. Depois as imagens estão bem distribuídas pelo espaço, sublinhando-se o ângulo em que todas elas são vistas, mas sendo disso o melhor exemplo a imagem que está ao fundo da galeria que, vista de baixo para cima, por um lado nos inferioriza face à paisagem retratada, por outro, sublinha a própria paisagem. Embora sendo discutível a montagem, aqui os pregos não me chocam, naquela paisagem de céu e rochas mescladas de ervas. Interessante é a opção pela ausência de vidro sobre as imagens, que se revela positiva, proporcionando-nos um maior contacto com cada uma das situações. Realce também para o excelente trabalho de impressão laboratorial, do melhor que temos visto, contributo fundamental para a força das imagens presentes.  

sexta-feira, 6 de Fevereiro de 2009

Breves histórias da China


Breves histórias da China, assim se chama a exposição de Paula Melâneo, na Delegação Económica e Comercial de Macau, em Lisboa. É um registo intímista pela interpretação muito pessoal da luz (Para lá da luz), com recantos de um romantismo oriental (À espera), onde está presente o choque entre o passado e o presente/futuro (Cidades inconstantes). Há na exposição registos mais simples, por vezes demasiado simplistas sob o ponto de vista fotográfico (Fechado ou Desenho), mas também há momentos simplesmente fantásticos (Superfície ou Momento 1). Em Superfície a imagem das tubagens perde pela dimensão adoptada que, numa outra escala, assumiria uma modernidade que faria dela uma das imagens mais significativas da exposição. 

Esta é também uma exposição bem pensada, o que se vê pelas opções de montagem adoptadas, com um bom ritmo e uma boa iluminação. É uma forma de contar uma história, a história de uma outra China da qual por vezes ouvimos falar, mas que raramente passa nos folhetos turísticos. Uma China verdadeira, sentida e vivida. Sublinho, vivida. Esta é a principal característica desta exposição. Paula Melâneo fugiu aos circuitos turísticos habituais, deixando-se encantar pelo "menos belo" dos bairros em extinção, mas que permitem o deambular da nossa imaginação pelas ruas e espaços retratados. Com isso deu-nos uma China simultaneamente mais humana e verdadeira, afastada da visão economicista que todos os dias chega até nós através da comunicação social. Como Álvaro Rosendo escreveu, estas são imagens que nos relatam o Caos e o Belo, ao mesmo tempo que nos propõem experiências aos sentidos.

À fotografia, enquanto forma de expressão artística, pede-se que transmita sentimentos e sensações. Não é fácil, até porque as imagens são compostas de pessoas e objectos que nos distraem, que se tornam, muitas vezes, uma embalagem opaca dessas sensações. Breves histórias da China consegue transmitir essas sensações, genuínas e verdadeiras, dando-nos a conhecer um país sedutor, ao mesmo tempo que, numa visão fotográfica moderna, nos mostra uma complexidade cultural acentuada pelas mutações sociais e económicas vividas nos últimos anos. 

quinta-feira, 5 de Fevereiro de 2009

Maio Claro - um ensaio ou uma revista de fotografia


No Centro Português de Fotografia, no sábado 31 de Janeiro, foi lançada com certo aparato a primeira revista de uma experiência, que se pretende anual, do Curso de Artes Visuais / Fotografia da Escola Superior Artística (ESAP), do Porto. De grande formato (28 x 45), recupera as actividades desenvolvidas em Maio de 2008, na I Semana de Fotografia da ESAP.  Apesar de conter trabalhos do âmbito do cinema, design e desenho, domina a fotografia, em imagem e texto. É uma revista de artes visuais predominantemente fotográfica. O que é muito gratificante, nos tempos que correm.

Ora a fotografia é uma disciplina complexa. Cobre diversos géneros, regiões de grau diverso de comercialização, aproveitamentos diversos em suportes variados, está na origem de outras artes visuais que nos circundam a vida, o contentamento e o desprazer; o mundo surge-nos mais em imagem do que na realidade do contacto directo, a fotografia iniciou este processo de vida global, esta proximidade, distanciamento e ocultamento a que chamamos sociedade da comunicação. E, afinal, toda a fotografia é documento, basta saber explorá-la e inseri-la numa série qualificável. Nós temos hoje mais documento que vida, mais representação, que sentires em directo.

E assim esperamos que uma revista de fotografia fale de tudo. Dos suportes, da técnica, dos documentos, do actual, do efémero, do mundo todo, da fotografia de autor e da doméstica, das teorias fotográficas e dos muitos usos em que a imagem vai sucedendo. Mas, acima de tudo queremos uma revista de fotografia que nos fale, nos mostre e argumente sobre o que nós somos, apresentamos e sentimos. E aí, sim, o Barthes é necessário, a fotografia remete para o real tanto como para a realidade: traz-nos pela luz qualquer coisa da realidade que conhecemos, desperta em nós o real que se esconde, mas que nos espreita. E a complexidade da fotografia revela-se também na necessidade de arrimo de outras disciplinas para o fotógrafo captar essa realidade fugidia que é o dentro e fora da vida. Não há fotojornalista que não prepare os seus estudos de caso, as séries de tendências, como não há retratista que esqueça tipologias diversas de interpretação de comportamentos. Os fotógrafos alimentam-se de conceitos de mudança e de viragem dos tempos, sabem de não-lugares e de desenraizamento metropolitanos, do absurdo da existência e da resilência, como sabem do absurdo da perspectiva triangular e das colagens dos céus picturalistas.

E então, Maio Claro faz uma síntese confortável de todas estas perspectivas. Tem bons portfólios acompanhados de textos (eruditos e, por vezes um pouco ingénuos, porque excessivos, nas apresentações das imagens dos finalistas em exposição), cobrindo o fotojornalismo, sem esquecer os depoimentos de fotojornalistas de agências portuguesas (Paulo Veludo, Paulo Duarte, Paulo Pimenta e Miguel Carvalho), a fotografia de teatro destacando António Alves; mostra e analisa fotografia de pendor antropológico, com imagens de Valter Vinagre e de arquivo sobre Fatima, recorre a fotografia doméstica de homens da fotografia (como Cão Pestana e José Marafona, do Grupo IF, ou Fernando Alvim sobre o pai fotógrafo). Há ainda recurso a fotografia arqueológica e, naturalmente, a fotografia de autor com dossiers mais vastos: bonitas e apelativas selecções de Virgílio Ferreira (a côr), Nelson d'Aires, Júlio de Matos, Inês d'Orey e Paulo Pimenta. 

O conceptualismo e o recurso pós-moderno nota-se em títulos de ensaio (Isto não é uma fotografia, sobre uma imagem de Chaplin), no desenho e manifesto muito juvenil e contestatário, Banquete permanente, em certo uso de letra de imprensa e manuscrita da decoração, muito arte povera.

Sem apresentação maior, pois o nome conta, surgem dois retratos de Matin Parr, um de José Nascimento, outro de Júlio de Matos, que foi o fundador do curso de fotografia da Árvore, a cooperativa que deu depois origem à ESAP. E ainda um dossier com muita força e pertinência, onde precisamente parecem congregar-se os diversos olhares e análises que a fotografia transporta, Paisaxes interiores, de Manuel Sendón. Aqui se fotografa e se fala daquelas imagens fotográficas que se escolhem para decorar as nossas paredes e que tanto dizem do real que se esconde. 

Maio Claro é uma revista de fotografia; é também um ensaio e um processo feliz. Tem uma lista de colaboradores imensa, e é uma grande responsabilidade do director académico António Teixeira e da coordenadora, Ângela Ferreira. Mas o que é muito novo, é que é de facto uma revista de fotografia.

Maria do Carmo Serén

quarta-feira, 4 de Fevereiro de 2009

Magnum Photos Events


Magnum Photos Events, assim se chama a informação disponibilizada pela Magnum. Com ela podemos saber em que projectos fotográficos estão envolvidos os fotógrafos da Magnum, a sua localização e calendarização, a sua abordagem estética, para além de uma exaustiva referência aos fotógrafos da agência e respectivos portfólios. É uma informação importante de seguir em http://events.magnumphotos.com/events 

domingo, 1 de Fevereiro de 2009

Jornal de Letras

Fez 30 anos, segundo uns, publicou o seu número 1000, segundo outros. De qualquer das formas os nossos parabéns ao Jornal de Letras. Poderá, de imediato, estar na mente dos nossos leitores o que é que isso tem a ver com um blog de fotografia. A resposta mais imediata é que o Jornal de Letras, como é conhecido, é também o Jornal de Letras, Artes e Ideias, ou que também fala, de uma forma séria, de fotografia e veja-se o trabalho sobre Paulo Nozolino num dos seus últimos números. Mas a resposta pode ser mais interessante sob o ponto de vista fotográfico se nos lembrarmos de que a fotografia já não é, desde há muito e felizmente, um campo cercado de altos muros, impenetrável para outras formas de expressão artística, fechado sobre si e imune a outras linguagens. Para mais, aprende-se fotografia vendo pintura, de qualquer época ou escola, através da educação visual ou do estudo da composição, alargam-se horizontes culturais visitando um museu, ganha-se sensibilidade com a escrita ou a música, reflecte-se num projecto ou prepara-se uma imagem fotográfica com base no desenho. Por isso, os nossos parabéns ao Jornal de Letras, Artes e Ideias, tão importante que tem sido para a cultura (e fotografia) portuguesa nestes últimos 30 anos, lutando contra ventos e marés, hoje como há 30 anos, quando escasseavam as publicações dedicadas à cultura, reduzidas a magras folhas informativas. Parabéns a José Carlos Vasconcelos que teve a coragem de erigir um projecto, parabéns a todos quantos têm colaborado com o JL ao longo destes anos, uns já desaparecidos, outros hoje participantes activos em muitos projectos culturais.

quinta-feira, 29 de Janeiro de 2009

O Livro Vermelho de um fotógrafo chinês


Vale a pena ver na Cadeia da Relação, no Porto, O Livro Vermelho de um fotógrafo chinês, de Li Zhensheng. A exposição é um autêntico livro de História do século XX, retratando uma realidade que marcou a vida de milhões de pessoas na China e fora dela. Bem apresentada, a exposição demonstra, nas diferentes salas em que se apresenta, uma arquitectura pensada e cuidada, à qual se juntam excelentes impressões fotográficas, em imagens de diferentes dimensões bem articuladas.

No texto do catálogo Maria do Carmo Serén diz-nos que "as fotos são o próprio fotógrafo". Nada de mais verdadeiro. Por vezes assistimos ao deambular por diferentes linguagens, umas próximas do cinema outras de nítida reportagem fotográfica, vemos diferentes abordagens estéticas, umas mais conservadoras outras menos, talvez fruto de uma maior preocupação do fotógrafo com os acontecimentos, eventualmente consequência de quem sentiu o ambiente revolucionário da Revolução Cultural chinesa, mas certamente de quem colocou muita paixão nas imagens que registou. É isso que nos permite compreender o bom sentido de colocação do fotógrafo, bem expresso no camponês que incita a multidão cantando slogans (Harbin, 1965), o momento certo do disparo, registando o dinamismo da cena que nos mostra os Guardas Vermelhos do Instituto de Engenharia Militar (Harbin, 1966) e ainda o seu envolvimento sentimental e militante, visível na multidão que agita o retrato de Mao (Harbin, 1966). É também isso que lhe permite registar todo o dramatismo da condenação pública de Wang Yilin (Harbin, 1966) ou do castigo imposto a Li Fanwu (Harbin, 1966), acusado de usar um penteado semelhante ao de Mao e registado numa notável sequência de imagens.

Foi este envolvimento, diríamos militância, refira-se que Li Zhensheng foi membro do Partido Comunista Chinês, que o levou a aceitar a manipulação das suas imagens, acabando por ser vítima do próprio ambiente revolucionário que fotografou, vindo a ser condenado a trabalhos forçados e ao internamento num campo de reeducação. Escondidas debaixo do soalho de sua casa, as imagens foram posteriormente enviadas para os escritórios da Contact Press, em Nova Iorque, entregues em cerca de 30 000 pequenos envelopes, cada um deles com um único negativo e diversas informações àcerca do filme, data e local do registo, além de outras informações suplementares.  O acordo para a apresentação pública das imagens determinou que nenhuma delas seria reenquadrada e que todas seriam emolduradas sem vidro, para permitir uma intimidade mais directa com o visitante. Para Li Zhensheng valeu a pena este trabalho de uma vida, exercendo hoje a sua actividade, enquanto fotógrafo, entre Pequim e Nova Iorque. Para nós, vale a pena ver estas imagens, pelo período histórico retratado e pela fotografia, no que toca ao seu valor ético, estético e de apresentação.

segunda-feira, 26 de Janeiro de 2009

MAIOCLARO - ver para além do imediato

Chama-se MAIOCLARO e é uma revista. Mais do que isso, aparenta um ar irreverente, jovem e inovador, experimentalista até. Esperemos que tenha sucesso esta lufada de ar fresco, uma iniciativa da direcção do Curso de Artes Visuais da ESAP (Escola Superior Artística do Porto). Significativamente os autores reivindicam para MAIOCLARO o estatuto de "um planeta habitado por uma linguagem estética que brinda às ideias novas daqueles que erguem o olhar para ver para além do imediato". Pretende-se compreender e analisar a fotografia enquanto forma de expressão e local de cruzamento de diferentes saberes e competências. Mais informações em www.maioclaro.com

segunda-feira, 19 de Janeiro de 2009

Estágios, vamos ver

Foi há dias apresentado pelo Primeiro Ministro, José Sócrates, um programa de estágios na área artística. Destinados a jovens artistas, com idade entre os 18 e os 35 anos, que se encontrem desempregados e que possuam qualificação na área da cultura, este é um programa que merece o nosso aplauso, ainda que não incondicional. E merece esse aplauso porque potencia a arte em Portugal pela aprendizagem e experiência que proporciona, não apenas sob os pontos de vista artístico, organizativo, de mercado e de contactos em rede, mas também porque se encara o apoio às artes de uma forma nova e com perspectivas de futuro.

Serão cerca de 200 estágios, com uma duração que varia entre os três e os nove meses, a realizar fora do país, o que só por si é um aspecto positivo. Nada me choca que os apoios sejam apenas até aos 35 anos e acho até lamentáveis as cenas que se viveram. Afinal as regras do jogo eram essas. Mas, e é aqui que o meu aplauso não é incondicional, esqueceram-se de falar com os agentes que, no caso da fotografia, lidam diariamente com esses jovens artistas. Vi escassos representantes das escolas de fotografia e esperava igualmente ver algumas galerias dedicadas à imagem fotográfica. Foi pena, especialmente quando nos lembramos da forma como a fotografia é encarada e da vida vegetativa do Centro Português de Fotografia que, aliás, ainda mantém a intenção de apoiar jovens talentos. Esperemos, pois, que esta boa ideia não se transforme num mar de burocracia e complexidade que impeça os jovens artistas de projectarem o seu nome, servindo apenas os profissionais do subsídio. Vamos ver.  

segunda-feira, 12 de Janeiro de 2009

Reflexões amorais em torno de bone lonely

Considero, sempre considerei, Paulo Nozolino um dos maiores e mais legítimos fotógrafos contemporâneos. Nas suas imagens vi sempre atmosferas de anjo caído. E os anjos caídos, como sabemos, estão entre o bem e o mal e assim continuam porque definitivamente sós, sem um deus que os amercie.

Bone Lonely, na sua crueza e ambiguidade faz-me lembrar atmosferas do imaginário, Moriyama nas suas fotos a preto e branco ou imagens de Araki que só conheço de livro. Coisas situadas, portanto, o que não acontece aqui nestes fragmentos quase intemporais desta mostra; mas imagens que me marcaram pela indefinida atmosfera de queda. O mundo, diz a antropologia contemporânea, é sempre a soma das narrativas de outros mundos inventados: uma soma aleatória de citações, de acordo com a aprendizagem e a vivência de cada um. Surge-nos sempre rodeado de palavras e de imagens alheias. É assim que o nosso corpo mantém em vida o espectáculo visível e é por isso mesmo que mundo, corpo e mente constituem um sistema.

Desde as décadas de 70 e 80 do século XIX que a evolução da ciência e das belas-artes, recusando estas o enquadramento do modelo renascentista e aquela o mecanismo de origem divina, sugeriu uma ruptura na representação e, mais do que isso, uma ruptura do olhar. Com a fotografia e o cinema caminha-se para uma fotografia que desestabiliza a arte horizontal, que introduz a vertical e perturba  a relação entre superfície e profundidade. E onde a noção de observador se altera.

Sabemos as brechas que estas reflexões e as novas noções de relatividade e alteridade provocam na concepção, ingénua ou não, de belas artes. Dois séculos de pensamento fortemente político produziram um modo de estar no mundo claramente ideológico, vivendo o homem comum inserido naquilo a que Pernícola chama o pensamento já concebido, já pensado e que apenas na era da comunicação se altera para um já sentido menos dramático mas sempre doloroso. Sabemos como o conceptualismo se isolou da diversidade do ser e afirmou para si a condução do olhar contemporâneo, na sua ânsia de desconstruir a ideologia nas grandes e pequenas coisas, negando a história providencialista, a contemplação quimérica ou a pluralidade do bem e do mal, impondo, em cenários de grandiloquência igualmente ingénua, a banalidade da existência, já libertada de Sartre.

Como uma complacente maioria também não acredito no génio romântico e acompanho Umberto Eco na sua crítica, posteriormente moderada, à teoria da representação: a obra vai absorvendo os olhares do tempo e da diversidade. Sei que, como em todas as coisas humanas, ao prazer da arte e da inspiração se juntam as demais venalidades da circulação que lhe acrescentam ou retiram valor. Ensinaram-me a não confundir o autor com a obra ou o processo. Mas guardo, como todos nós, as minhas excepções. Sempre liguei a imagem que Nozolino dá de si mesmo, a sua personagem aventurosa e contestatária, com a atmosfera das suas fotografias, o que será um pecado interpretativo, mas é também uma explicação. Trata-se sempre da aventura humana, de corpos e de ideias e para haver aventura é necessário que um continuado pessimismo abra janelas para o momento inesperado. No que guardei de um conhecimento breve registei essa mesma impressão, agitação, impaciência, uma brusca atenção a todos os pormenores. Fotógrafos como Paulo Nozolino guardam no imaginário impressões e retribuem com sentires, não com aconteceres. O que também é, ao que se diz, um pecado. Apropriam-se de sinais, mais do que de objectos. O que faz deles homens conscientes do sistema. E, por isso mesmo, os picos da moda de correntes e de estilos não preenchem as suas preocupações. Talvez por isso me lembre Moriyama ou Araki e, por vezes, o William Klein de Moscow ou Tokyo, se esquecermos o excesso das suas figurações. E também por isso mesmo, se compreenda porque, sendo refractário ao tribunal pós-moderno, tenha mantida, intocada, a aceitação unânime das suas imagens a preto e branco de contestação e alerta.

Bone Lonely constrói-se com citações, a atmosfera de cada imagem adensa a ideia do todo; a solidão do homem, de qualquer homem, a solidão do autor, são efeito dos erros de alguns, são erros históricos e nem a desincronização das imagens, pautando a eterna repetição dos males, responsabiliza todos. Ao contrário da gnose que ilustra as misérias do mundo imperfeito de Martin Parr ou a desestruturação dramática dos rostos de Thomas Ruff, as imagens de Nozolino não lamentam, não ironizam, não são indiferentes. Nem argumentam, outro pecado. Acusam.

Maria do Carmo Serén 



 

sexta-feira, 9 de Janeiro de 2009

Pour Zarma, Changer à Babylone


Cinco fotógrafos escolheram cinco palavras. Depois propuseram a cinco escritores que escolhessem uma palavra e, a partir daí, elaborassem um texto onde não poderiam ser usadas as restantes vinte e quatro palavras. O projecto Pour Zarma, Changer à Babylone consiste na junção de textos e imagens pelo colectivo Odessa, fundado em 2002, em Toulouse e que se assume como um espaço de pesquisa, onde cada fotógrafo dá e recebe do colectivo, no sentido de desenvolver os seus projectos. No futuro, o colectivo Odessa prevê a continuação desta abordagem, ainda que cada projecto possa ser orientado por um director artístico diferente.

Esta irreverência criativa está bem patente nas imagens e na forma de trabalhar a côr pelo grupo que, com base nas diferentes abordagens fotográficas, justificam a diversidade que cada projecto pode assumir. Ainda assim, assiste-se a um denominador comum baseado na contemporaneidade da abordagem da côr e de se respirar um ambiente de pesquisa e de experimentalismo deveras interessante e, simultaneamente complexo, provocatório e belo. Esta é a importante mais valia desta exposição, o mostrar que é possível de arriscar esteticamente, ainda que não com soluções inteiramente novas, veja-se a excelente imagem de Marion Lefebvre existente do lado esquerdo, ao fundo da galeria.

Aceito perfeitamente a opção dos autores em não identificarem as imagens no espaço da exposição. Concordando ou não, é uma opção dos autores, a fim de sublinharem a ideia de colectivo e de uma expressividade comum. Ainda que registando momentos pessoais, por vezes como apontamentos fotográficos, o conjunto assume-se com uma linguagem comum a todos os autores, despido das regras clássicas e concedendo-lhe um olhar mais contemporâneo, sendo este também um aspecto interessante que podemos descortinar nesta exposição. Aliás, tirando a forma de trabalhar a côr, já atrás referida, é difícil identificar cada autor no conjunto das imagens expostas, sem recurso à maqueta disponível na galeria.

Já não posso aceitar a montagem anárquica e confusa da exposição, ainda que possa parecer óbvia aos fotógrafos. A arte contemporânea vive muito da interacção com o espectador e, na verdade, quem entra e sente a exposição num primeiro olhar, não deixa de se sentir confuso com a disposição das imagens. Pior do que isso só aqueles punaises a prender as imagens às paredes. Não esperava isso numa galeria, não via isso há muitos anos. Quanto ao catálogo, interessante sob o ponto de vista gráfico, deixa muito a desejar em termos de qualidade de impressão. 


terça-feira, 6 de Janeiro de 2009

Açores profundos


Para quem gosta de livros, passar por Ponta Delgada e não ir à velha Livraria Gil é cometer um pecado grave. Foi lá que encontrei açores profundos, um livro de fotografia, talvez o melhor que vi em 2008 (ainda que a data de edição seja 2007), numa edição da Caixotim, com imagens do fotógrafo micaelense Paulo Monteiro e textos de Álamo de Oliveira e Madalena San-Bento.

Açores profundos constitui um excelente levantamento fotográfico de diversas festividades açorianas, em diferentes ilhas, onde o sagrado e o profano se conjugam gerando complexidades culturais diferenciadas. É um levantamento fotográfico de grande qualidade estética, visto numa vertente de autor, muito próximo de um trabalho conhecido nos circuitos internacionais - Espanha Oculta de Cristina Garcia Rodero, a quem, de resto, o autor agradece a inspiração no final do seu trabalho. Ao longo de toda a obra pode observar-se um erudito gosto e um olhar sofisticado daí decorrente. Causa e consequência disso, observa-se uma proximidade e uma envolvência com as pessoas e as situações registadas, que se materializa na escolha adequada de objectivas e enquadramentos e nos momentos certos para o disparo, que de tal forma é evidente, que faz com que o fotógrafo, quase de uma forma egoísta, se aproprie de momentos únicos da cultura colectiva. Os gestos, os olhares ou os sorrisos registados possuem o timing certo do disparo, nem mais nem menos um breve segundo. Aqui se pode vislumbrar a alma açoriana presente nas tradições, nas catástrofes da natureza, sejam elas os sismos ou os omnipresentes vulcões, temperadas com o sofrimento, a alegria e a fé. 

Este é também um trabalho reflectido em termos de abordagem técnica e estética, sendo disso exemplo as soluções técnicas  adoptadas ou os continuados enquadramentos ao baixo. Por outro lado, a forma de tratar o preto e branco consegue traduzir as ambiências e os momentos, também com uma grande semelhança com o trabalho de Cristina Rodero atrás referido (São Brás, Ilha de S. Miguel, primeiro dia de peregrinação, 2000, em oração na igreja ou Ribeira Grande, ilha de S. Miguel, 2003, desfile dos cavaleiros). 

É também um trabalho que se afasta dos estereotipos destinados ao turista, estando sempre presente a ideia de registo sociológico, com o qual se preserva para o futuro uma realidade em risco de desaparecer ou de ser adulterada. As imagens, ainda que com uma base documental, traduzem o facto de o autor considerar as pessoas o mais importante da fotografia, relegando os espaços para simples fundos da composição.  

Por último há que fazer uma referência ao grafismo da obra, moderno, de bom gosto e adequado às imagens e à impressão, esta de excelente qualidade. É claramente um trabalho indispensável em qualquer biblioteca de fotografia.

segunda-feira, 5 de Janeiro de 2009

Searching


Está patente no lindíssimo espaço da Academia das Artes, em Ponta Delgada, a exposição Searching de José Luis Santos. Pena que a exposição não esteja à altura do espaço que ocupa. Poderíamos discutir as imagens, cada uma com uma dimensão diferente, coladas nas paredes como há muitos anos não se vê numa exposição, em filas de imagens monótonas, descoladas e onduladas devido à humidade, contribuindo para nos sentirmos perdidos num labirinto de imagens. Muito menos imagens mas melhor apresentadas, seria a receita para esta exposição. Mesmo com o argumento de que não se quer optar pela clássica moldura, e as imagens podem esteticamente justificá-lo, há outras formas de se apresentarem as imagens com a dignidade que uma exposição (e o público) merece. De resto, o mesmo acontece Do amor e do Ódio, do mesmo autor, presente no Museu Municipal da Ribeira Grande.

Se é certo que vistas isoladamente algumas imagens possuem caminhos estéticos que poderiam ser interessantes, demonstrando que o autor está atento aos trabalhos de outros fotógrafos, podendo enquanto artista assumir uma estética de negros pesados com relevo para as baixas luzes, também é certo que pelo meio aparecem imagens com uma estética próxima dos clubes de fotografia dos anos setenta e oitenta. É nesta incoerência que a exposição perde força e se torna confusa, submergindo algumas imagens muito interessantes sob o ponto de vista estético (Madrid - Espanha 2007, Linha do Norte 2008, Silhueta - S. João de Tarouca 2007 ou Confissão - Coimbra 2008). Aliás, a péssima montagem vai ao ponto de que se quisermos identificar uma imagem temos de a contar a partir de um dos extremos da parede, esperando acertar. 

Ainda com o contra de se misturar o preto e branco com a côr, salva-se a interpretação pessoal do autor, sentida, dos espaços, dos afectos e das pessoas retratadas. Este é talvez um dos pontos mais positivos da exposição, beneficiando muito do preto e branco e das opções técnicas e estéticas inerentes àquela forma de fotografar em preto e branco. Aliás, essas opções estão em consonância com os sentimentos que o autor sente e expressa e onde se nota a influência dos trabalhos de Paulo Nozolino (Penumbra 1996 e especialmente Tuga 1997), ainda que não obtenha a próximidade e a envolvência que este consegue. 


Veres em Ponta Delgada


Veres é o nome da exposição de fotografia patente no Museu Carlos Machado, em Ponta Delgada, da autoria de António Ferreira Pacheco. Trata-se, como o catálogo indica, de uma exposição participante na organização sistemática de acervos fotográficos dos Açores, embrião de um Arquivo Regional de Fotografia.

Quando se entra na sala sentem-se, de imediato, duas sensações:- a organização e o excesso. A organização, porque toda a sala apresenta com dignidade as imagens, onde uma ficha técnica cuidada nos informa de quem interveio na exposição. O excesso, porque são demasiadas imagens para aquele espaço, onde a visualização de cada imagem colide com a que lhe está imediatamente ao lado. As imagens não respiram o suficiente, acabando por ser prejudicadas na sua fruição. O branco profundo da sala e a regularidade na colocação dos quadros, sem ritmo, prejudicam também a exposição. Neste aspecto, algumas das imagens ganhariam com outra escala (sem título - Ilha de S. Miguel 2008/catálogo 14 ou Tamara - Ilha Terceira 2002) onde uma grande dimensão (p. ex. 70x100) nos faria abordar as imagens com uma envolvência quase esotérica dando outra força e outro ritmo à exposição. Menos imagens, algumas noutra escala e teríamos uma outra exposição que, eventualmente, poderia saltar para uma galeria de arte. Também a evitar a mistura do preto e branco com a côr, já que uma exposição é não é apenas um somatório de imagens, mas antes uma forma específica de apresentar um projecto, logo incompatível com a convivência de duas abordagens diferentes no mesmo espaço. É especialmente aqui que se nota que o projecto ganharia, ou eventualmente seria outro, se beneficiasse de um maior acompanhamento artístico.

Quanto ás imagens, todas elas bastante bem impressas, o autor oscila entre a imagem predominantemente de autor, sentida (Tamara - Ilha Terceira 2002) e a imagem de cariz turístico (Sem título - Ilha de S. Miguel 2008/catálogo 22) , por sua vez incompatíveis numa galeria com a imagem mais básica dos pormenores dos barcos. Melhor seria a separação do conjunto em dois núcleos distintos, sendo que a apresentação em galeria merece um claro predomínio do primeiro género. De qualquer das formas há que realçar em algumas imagens o silêncio e a tranquilidade que se respira, fruto de um olhar mais sentido e cuidado (Abraço - Ilha de S. Miguel 2007 ou Sem título - Ilha de S. Miguel 2006/catálogo 16), ou caminhos estéticos mais arrojados e que mereciam ser mais explorados (Sem título - Ilha de S. Miguel 2007/catálogo 3).

domingo, 4 de Janeiro de 2009

Máquinas fotográficas

Está patente, em Angra do Heroísmo, uma exposição de máquinas e acessórios fotográficos pertencentes à Colecção de Ciência e Técnica do Museu de Angra do Heroísmo, tendo sido, na sua maior parte seleccionada a partir de dois espólios adquiridos pelo Museu, dos fotógrafos José Pessoa e Arnaldo Tristão Aguiar, mas onde também está presente uma interessante Kodak Century 7A que pertenceu ao fotógrafo José Rodrigues, estabelecido em Angra na primeira metade do século XX. A exposição é acompanhada por um catálogo de bom grafismo e muito bem executado sob os pontos de vista informativo e didáctico, que inclui, no seu final, um glossário, útil para o público visitante que necessite desse apoio técnico. Esta exposição, produzida pelo Museu de Angra do Heroísmo, pode ser vista até ao próximo dia 18 de Janeiro. 

segunda-feira, 22 de Dezembro de 2008

Jorge Gomes da Silva

Faleceu Jorge Gomes da Silva, considerado o decano dos fotógrafos madeirenses. Dedicou-se desde sempre à fotografia, uma actividade iniciada por seu avô, Vicente Gomes da Silva (1827-1906), o que fez da Photographia Vicente, no Funchal, a mais antiga casa de fotografia em actividade em Portugal, sendo um dos raros estúdios do século XIX ainda hoje existentes no mundo. De tal forma é importante o seu espólio, que retrata a vida madeirense ao longo de mais de cento e cinquenta anos que, em 1979, o Governo Regional adquiriu o espaço, vindo a surgir o Museu Photographia Vicentes, em Março de 1982, dependente da Direcção Regional de Assuntos Culturais.  O estúdio está hoje classificado como imóvel de valor cultural regional, possuindo o Museu no seu acervo inúmeros cenários, máquinas fotográficas, mobiliário de estúdio e mais de oitocentos mil negativos, datáveis entre 1876 e 1982. Recorde-se que a actividade fotográfica de Vicente Gomes da Silva teve início em 1856, após alguns anos de actividade como gravador. Refira-se ainda a tradição familiar da actividade, que rivalizava com outra família da ilha, os Perestrelos. Jorge Gomes da Silva assumiu a direcção da Photographia Vicente em 1960, sendo considerado um exímio técnico de retoque.


domingo, 21 de Dezembro de 2008

Prémio UNICEF - Alice Smeets

A fotógrafa Alice Smeets, de vinte e um anos e nacionalidade belga, foi a premiada pela UNICEF, com uma imagem de uma menina num bairro de lata de Port au Prince, no Haiti. Alice Smeets, que fotografa há apenas dois anos, fez esta imagem em Julho de 2007, tendo sido proposta a concurso pela fotógrafa da GEO Tina Ahrens, já que os fotógrafos participantes não podem enviar as fotografias pessoalmente.

Marilyn Monroe

A Cristie's realizou esta semana, em Nova Iorque, um leilão onde a fotografia foi rainha. Icons of Glamour and Style: The Constantiner Collection reuniiu cerca de trezentos e vinte lotes, com imagens de grandes fotógrafos como Richard Avedon, Irving Penn ou Robert Mapplethorpe. De entre as estrelas deste leilão estavam algumas imagens de Marilyn Monroe retratada por André de Dienes, Andy Warhol, Elliot Erwitt e Bert Stern, entre outros. A imagem que apresentamos fazia parte de um lote da autoria de Andre de Dienes, fotógrafo falecido em 1985, integrada na série Tobey Beach, Long Island, 1949. Com uma estimativa de três a cinco mil dólares, a imagem, tal como acontece nestes mercados, vinha acompanhada de diversa informação sobre a actriz e sobre o fotógrafo, além de documentação comprovativa da sua autenticidade, acabando por ser arrematada por mais de seis mil e oitocentos dólares. 

quinta-feira, 18 de Dezembro de 2008

Transições


Transições
, de Manel Armengol, retratam um período de mudanças fundamentais vividas em Espanha, na China e nos EUA, em finais da década de setenta do século XX, estando patente ao público até final de Janeiro no Arquivo Municipal de Lisboa. Esta exposição é uma iniciativa da Fundação Foto Colectânea, entidade privada espanhola que se dedica, segundo as suas palavras, a estreitar a relação existente entre a criação e o mercado e que tem representados, entre outros artistas portugueses, Helena Almeida, Augusto Alves da Silva, Gérard Castello Lopes, Inês Gonçalves e António Júlio Duarte.

De Manel Armengol há que dizer que nasceu em Badalona, em 1949, tendo as suas fotografias preenchido as primeiras páginas de muitos jornais espanhóis e do resto do mundo. Conseguiu nelas um olhar pessoal e íntimo, que está presente em toda a exposição e que só um grave acidente de viação o obrigou, primeiro, a interromper a sua actividade de fotojornalista, depois, a mudar a forma de abordar a fotografia.  

Não sendo uma das grandes exposições que passa por Portugal, não deixa de ser interessante reflectir sobre as imagens ali presentes. Na época que é retratada, Espanha vivia a transição da ditadura para a democracia, abrindo-se ao mundo e a um intercâmbio cultural livre. Quando vemos Roupa estendida no Bairro Carmelo, Barcelona, 1976, o tempo remete-nos para a fotografia feita em Portugal na mesma época. Muito semelhante na técnica, muito igual sob o ponto de vista estético. Como evoluiu desde então a fotografia espanhola? Como evoluiu no mesmo espaço de tempo e em condições culturais e políticas semelhantes a fotografia portuguesa? A grande vantagem desta exposição reside precisamente aí, na comparação de uma evolução, o que, infelizmente, nem sempre evita o repisar das mesmas receitas, já gastas e ultrapassadas, mas muito vistas em sites e revistas, hoje, em Portugal.

Em Transições predomina um classicismo característico da época (Rapariga diante de uma montra, Pequim, 1979), não deixando de nos surpreender com bons apontamentos fotográficos de cumplicidade (Avô e criança em bicicleta, Xangai, 1979) ou de uma tridimensionalidade de planos em que o digital ainda não consegue ultrapassar o filme (O mestre e os seus alunos, Grande muralha, 1979). Nas imagens que nos são apresentadas não deixamos de sentir um país fechado ao exterior, estranho e desconhecido para quem o visita, que ao mesmo tempo deixa transparecer a vida simples e a curiosidade de quem é visitado (Rapaz olhando para dentro do carro, Xangai, 1979). 

Já nos EUA, em Nova Iorque, o que atrai o fotógrafo é o facto de na Grande Maçã ainda se poder passear e encetar uma conversa despreocupadamente com alguém na rua. É neste grupo que o autor apresenta, para a época, alguns laivos de modernidade que devem ser referidos (Deserto sinalizado, Texas, 1977 ou Coffee Shop, Califórnia, 1977).

Não poderíamos deixar passar despercebido este ressurgir do Arquivo Fotográfico de Lisboa, depois de um longo período de hibernação involuntário. Mais uma vez, como sempre aconteceu naquele espaço que nos seus tempos áureos já foi uma referência no panorama fotográfico, a exposição ali apresentada depende em muito da eficiência de uma equipa que, para quem conhece o meio, vive da paixão por aquilo que faz e que merece ser apoiada.

 

domingo, 14 de Dezembro de 2008

Espólio Fotográfico Português



O comendador Mário Ferreira e o CEPESE (Centro de Estudos da População Economia e Sociedade) vão proceder ao lançamento da obra Espólio Fotográfico Português, coordenada pelo professor doutor Fernando Sousa e que contará com a presença do Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, engenheiro Mariano Gago. Este lançamento será complementado com a apresentação do site www.espoliofotograficoportugues.pt , um projecto que tem início com o acervo da Fotografia Beleza, no Porto.

Recorde-se que a Fotografia Beleza foi fundada no Porto, em 1907, na Rua de Santa Teresa. O seu fundador, António Beleza, já antes dono da Royal Foto, tornou a nova casa numa referência da fotografia portuense, para isso contribuindo também a acção de Moreira de Campos, que dirigiu a casa depois de 1918 e de António Lopes Moreira, seu proprietário após 1935. Se considerarmos que António Beleza havia possuído a sua Royal Foto no mesmo local em que Emilio Biel tivera o seu atelier e que lhe adquirira uma grande parte do seu espólio fotográfico, facilmente podemos constatar que os registos fotograficos hoje acumulados ultrapassam a vida da própria Fotografia Beleza e, com isso, ganham uma importância histórica para a cidade e para o país.

De facto, esta é uma das riquezas do projecto, que se propõe iniciar a recolha de espólio fotográfico, uma tarefa que, como sabemos, até há alguns uns anos estava a cargo do Centro Português de Fotografia e que hoje não se sabe bem a quem está atribuída. Sublinhe-se que a Fotografia Beleza, possuindo um estúdio ainda com decoração do início do século XX, nos deixou um dos maiores espólios fotográficos que se conhecem, constituído por mais de 10 000 chapas de vidro, de paisagens a retratos, passando pela vida urbana e industrial. Este espólio é, provavelmente, o mais importante fundo do século XX com origem numa casa fotográfica portuguesa e inclui documentação textual de suporte. Por último recorde-se o propósito futuro das entidades envolvidas em adquirirem outros espólios semelhantes.



sexta-feira, 12 de Dezembro de 2008

Jorge Molder deixa o Centro de Arte Moderna

Segundo notícia inserta nas páginas do Público, Jorge Molder vai abandonar a direcção do Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, já a partir do próximo dia 11 de Janeiro devendo, no entanto, continuar ligado ao CAM como consultor. Molder, que enquanto fotógrafo é um dos artistas mais representativos na moderna fotografia portuguesa, deixa no CAM uma extensa obra de apoio e divulgação da arte contemporânea, nomeadamente algumas retrospectivas de artistas portugueses ali realizadas. Destaque também para os catálogos de muitas dessas apresentações, que constituem referências incontornáveis  na historiografia da arte contemporânea portuguesa.


quarta-feira, 10 de Dezembro de 2008

Mark Ruwedel

Liz Jobey, jornalista do The Guardian, aborda o trabalho do fotógrafo Mark Ruwedel, um registo  dos trilhos das vias férreas hoje já desaparecidas. Liz Jobey, depois de historiar a ligação entre a fotografia e o aparecimento do comboio, com registos um pouco por todo o mundo (recorde-se em Portugal os trabalhos de Emilio Biel no início do século XX, ou recentemente Histórias dos Cavalos de Ferro 2001) apresenta-nos Mark Ruwedel e o seu trabalho, onde predominam as paisagens inóspitas e onde se sentem as marcas do tempo, mas ao mesmo tempo se imaginam as pessoas, os sons e os comboios que por ali passaram. Este projecto, que teve início no Utah, em 1994, registou mais de cento e trinta vias férreas abandonadas ou hoje já inexistentes, numa perspectiva acentuadamente paisagistica e onde se sente a influência da Land Art, movimento estético da década de setenta, que valoriza a importância do espaço pelo enquadramento utilizado e o efeito psicológico causado por esse mesmo enquadramento. As imagens de Ruwedel transmitem-nos igualmente um sentimento de descoberta, por vezes sublinhado pelas espectaculares proezas da engenharia, necessárias para ultrapassar montes e vales ou atravessar o continente americano. Para ver o artigo de Liz Jobey na íntegra veja www.guardian.co.uk/artanddesign/2008/dec/04mark-ruwedel-railways-photography


A linguagem da fotografia

A linguagem da fotografia é a linguagem do ver afirma Clóvis Loureiro. O que, afinal, um fotógrafo expressa é o seu modo de ver o mundo. E podemos ver com mais ou menos inteligência, com mais ou menos sensibilidade, com mais ou menos originalidade, mais ou menos espontaneidade. Geralmente os fotógrafos são pessoas que se deleitam com o ver. Ver com profundidade significa compreender. Este interessante texto sobre a fotografia e o acto de fotografar pode ser visto na íntegra em www.fotografiacontemporanea.com.br/v07/artigo.asp?artigold=3334012E


terça-feira, 9 de Dezembro de 2008

Presença na Ausência ou os cenários de afectos de Rita Barros

Há espaços que dá prazer visitar. Estou a falar da Pente 10, uma galeria vocacionada para a fotografia, situada num lindíssimo pedaço de Lisboa que parece ter sido arrancado ao passado, onde a presença do jardim e do aqueduto, quando não mesmo o nome da própria rua, marcam profundamente a ambiência do local. É surpreendente a vitalidade desta galeria e a diversidade de propostas que nos tem apresentado em matéria de fotografia. Acresce a atenção para com o visitante e o cuidado com o acervo fotográfico, factos que pudemos observar enquanto visitantes.

Presença na Ausência, de Rita Barros, apresentada na Pente 10 até meados de Janeiro, constitui uma viagem até ao mundo pessoal e íntimo da fotógrafa, um mundo que se resguarda entre as quatro paredes da sua casa em Nova Iorque. Presença na Ausência faz também parte do projecto Descubrimientos da Edição da Photo Espanha 2007. Refira-se a propósito que Rita Barros reside em Nova Iorque desde 1980, onde trabalha como freelancer, tendo já exposto e publicado um pouco por todo o mundo e estando presente em diversas colecções públicas e privadas.

As imagens, com um certo sabor pop, são marcadas pela côr vibrante, relegando para uma segunda análise as ambiências, as formas e os locais. Ainda assim, as imagens apresentadas no espaço superior não deixam de cruzar duas estéticas distintas, a da imagem forte, colorida e intímista, que como que expõe o espaço sagrado da fotógrafa, e a imagem contemplativa da cidade, observada da janela. Ambas denotam uma forte influência de correntes contemporâneas, onde o detalhe de cada enquadramento, a naturalidade do olhar e o facto de terem como elemento comum uma mesma referência psicológica constituem o elo de ligação entre todas as imagens. Este trabalho, ao entrar no campo subtil das Imagens do Quotidiano, assume todos os riscos que isso comporta em termos estéticos e de diversidade de situações, conseguindo passar incólume a eles. 

Por outro lado, Presença na Ausência, pela forma como utiliza a côr, dá alguma continuidade estética ao trabalho da fotógrafa há alguns anos apresentado em Portugal, com Chelsea Hotel, onde a côr vibrante sublinhava os cenários excêntricos dos quartos ou dos seus habitantes. Mas, ao mesmo tempo, distingue-se por um patamar novo em termos técnicos e estéticos e pela maior reflexão pessoal sobre os objectos que rodeiam a fotógrafa no seu quotidiano. E é este o grande segredo do conjunto. Com ele, como que conseguimos viver os momentos de meditação da autora e com estes compreendemos a fotógrafa. É surpreendente a forma como Rita Barros se (nos) revela com estas imagens, onde o olhar sobre os objectos nos mostra os momentos da sua intimidade, por vezes mesmo de solidão. Uma outra riqueza destas imagens reside no facto de os seus espaços constituírem igualmente um leque de sentimentos, que nos transportam até outros locais e momentos, como se de uma interactividade se tratasse.

A exposição permite no andar inferior vermos uma Rita Barros mais experimental, talvez menos conseguida, a fazer lembrar outros caminhos que a autora experimenta, numa procura de constante evolução técnica e estética sem no entanto nunca deixar a sua filosofia de imagem (Bienal de Cascais 2000). Ainda assim, destaque para aquele maravilhoso recanto com uma solitária cadeira, onde o abandono e a tristeza do cenário condizem, em pleno, com um imaginário que transportamos para o exterior pelo pouco que se pode ver através das janelas.

As imagens aqui apresentadas mostram-nos também algo de perturbador para os fotógrafos, que é o facto de muitas vezes procurarmos insistentemente um tema ou assunto, com o argumento da inovação, do interesse fotográfico ou de qualquer outra razão, quando o assunto pode estar tão próximo de nós quanto os objectos do nosso quotidiano. Com estes cenários de afectos que constituem Presença na Ausência, Rita Barros demonstra-nos que tudo pode e merece ser fotografado, fazendo-nos reflectir nos nossos próprios caminhos.

segunda-feira, 1 de Dezembro de 2008

O Presente: Uma Dimensão Infinita





Está patente em Lisboa, no Museu Colecção Berardo, um conjunto de imagens pertencentes à BESart - Colecção Banco Espírito Santo. Para quem pense que se trata apenas e só da mostra de uma extraordinária colecção de fotografia, uma das melhores da Europa no dizer de uma das suas comissárias, é de sublinhar, desde já, que é muito mais do que isso, é uma extraordinária lição de fotografia.

Iniciada em 2004, esta é a primeira grande apresentação pública desta Colecção, tendo como comissárias Lorena Martínez de Corral e Maria de Corral, esta última também comissária da Bienal de Veneza de 2005. A exposição apresenta-se dividida em secções temáticas - Natureza; Universos Privados; Retratos; Narrações, Ficções e Realidades; Sociedade e Vida Urbana; Conceitos, Ideias e Críticas; Espaços, Lugares, Objectos; Arquitecturas. Intitulada O Presente: Uma Dimensão Infinita, constitui um marco nas exposições de fotografia contemporânea em Portugal, consequência da sua cuidada apresentação, veja-se a conjugação de algumas obras com a paisagem fora das paredes do CCB observada nos espaços envidraçados, da sua diversidade estética, ali cabendo as abordagens enigmáticas e pesadas de Paulo Nozolino lado a lado com o realismo dos espaços fotografados por Candida Hofer (Rijksmuseum Amsterdam II  2003), ou a envolvência de Cindy Sherman, sinónimo também da abrangência estética dos responsáveis pelas aquisições que, apesar disso, nunca descuraram a qualidade. Sinónimo também da riqueza fotográfica da própria Colecção, dotada de alguns dos nomes mais sonantes da fotografia mundial. 

Em toda a mostra é nítido um diálogo de formas distintas de ver e sentir a fotografia. Aliás, este é um dos pontos fortes desta colecção, assumido no catálogo que acompanha a exposição. Ácerca desse catálogo, destaque para a sua componente informativa e para a sua qualidade gráfica e de impressão, a fazer lembrar um outro editado aqui há uns anos (Waterproof / À prova de Água - Jorge Calado 1998).

Se é verdade que a exposição possui a marca da memória e da História da própria Colecção, ela constitui também uma viagem pelos sentimentos. Vejam-se as imagens de Adriana Molder, onde uma luz sentida e interventiva marca a sua presença, levando-nos a uma hesitação interpretativa entre a fotografia e a pintura. É também o caso da intimidade transmitida por Irving Penn (Football Face 2002), da força e da presença do palhaço (sem título - série Clowns  2004) de Cindy Shermam, misto contraditório de realidade e artificialidade em que a artista se transforma e auto-retrata, ou os magníficos retratos de travestis de Nan Goldin (Mysty in Sheridan Square 1991), em que o olhar do personagem principal interage connosco, olhando-nos directamente nos olhos, marcando a sua presença pela atitude, formas, luz e posicionamento, num contraste com o polícia em segundo plano que, de forma diferente, parece também conversar connosco. É clara a cumplicidade e a envolvência de Nan Goldin com as pessoas que retrata, algo que tem tanto de dificuldade quanto de atingir um estádio superior da expressão artística em fotografia.

Neste passeio pela fotografia contemporânea é evidente que não podemos esquecer a capacidade descritiva de Andreas Gursky (Dior Homme 2004), que não sendo dos seus trabalhos mais marcantes, não deixa de constituir uma referência importante na colecção. Esta capacidade de descrição do ou dos objectos, tão característica de alguns dos trabalhos de Gursky e que um dos caminhos da moderna fotografia destaca, é baseada em realidades da cultura de massas, tão comuns na nossa vida diária que muitas vezes um olhar menos cuidado é impelido a desvalorizá-la de forma injusta. Nesta linha dos espaços e do sentir que eles despertam, não podemos deixar de referir o trabalho de Thomas Strouch (Shangai Panorama 2002) com uma obra já conhecida nos circuitos internacionais e uma das primeiras a integrar a Colecção, ou a luz fabulosa, com a intimidade e mistério que ela desperta, dos cenários de Stan Douglas (La Casa de la Moneda 2004). 

Em matéria de interpretação de espaços paisagísticos é de sublinhar o trabalho de Mitch Epstein (Amos Coal Power Plant 2004), cuja expressividade cromática de uma realidade presenciada pelo fotógrafo não nos deixa indiferentes.Refira-se que no trabalho de Mitch Epstein está bem presente também uma clara influência do cinema e do vídeo.

Os diferentes núcleos em que se organiza a exposição reflectem uma ideia estrutural que serve de suporte não apenas à própria Colecção, mas também à exposição, prova de que o comissariado soube interpretar todo o sentido da Colecção. Por exemplo, nos temas de Natureza é de notar a contemporaneidade e a abrangência interpretativa da ideia de paisagem, desde o romantismo de Joshua Cooper (The Azores 2004), à manipulação de escala de Gursky (Schnorchler 1998), que nos faz sentir pequenos no seu universo, ou onde Isaac Julien (Westem Union Series nº 2  2007) nos obriga a esfregar os olhos, sem termos a certeza de que estamos perante aquelas imagens no ambiente calmo e acolhedor daquelas salas ou se estamos perante a paisagem gélida e inóspita que retratam.

Seria injusto esquecer os fotógrafos portugueses presentes nesta Colecção, cuja qualidade indiscutível se traduz pela sua constante presença nos vários núcleos desta exposição. Destaque para Helena Almeida, agora com mais uma grande exposição em Espanha, Augusto Alves da Silva, Duarte Amaral Neto, Daniel Blaufuks, Gérard Castello Lopes, António Júlio Duarte e muitos outros, o que significa, simultaneamente, a qualidade da produção artística portuguesa, ainda que desejássemos uma maior e mais rápida renovação, e a confirmada responsabilidade social do BES, na área da cultura e da arte, ao apoiar a fotografia portuguesa. Disso é exemplo o facto de, nesta exposição, se poderem encontrar lado a lado nomes consagrados dos circuitos expositivos internacionais com jovens valores da fotografia portuguesa, algo que não é muito comum em Portugal, ainda que experimentado no passado (edições dos Encontros de Fotografia de Coimbra, edições dos Encontros de Imagem de Braga, Bienal de Cascais 2000).

A diversidade dos olhares presentes permite-nos também reflectir sobre a Fotografia, o que é, o que se faz e o que se reivindica de artístico. Permite-nos interrogações sobre os circuitos fotográficos nacionais, por vezes comparando-os com realidades não muito distantes, que nos mostram que caminhamos no sentido do acentuar do fosso entre as manifestações artísticas que possuem uma qualidade indiscutível e aquelas que, infelizmente, não a possuem, em diferentes suportes expositivos e de contacto com o público. Por tudo isto, mais uma vez,esta mostra da Colecção BESart é uma excelente lição de fotografia.  

quarta-feira, 26 de Novembro de 2008

Gulbenkian no Flickr

A Fundação Calouste Gulbenkian foi a entidade cultural portuguesa mais falada na blogosfera devido à divulgação das suas colecções de fotografia no Flickr.
Este projecto, da iniciativa da Biblioteca de Arte da Gulbenkian, conseguiu mais de
100 000 visualização no espaço de apenas três meses. 
O projecto constitui uma ferramenta fundamental não apenas nos campos da História e da História de Arte, mas também da fotografia, permitindo-nos descobrir uma fotografia documental de excelente execução técnica e de uma estética sedutora, muito baseada no hiper-formalismo e num olhar contemplativo, de que Mário Novais, entre outros, foram excelentes executantes. 
É, pois, um excelente contributo para conhecer um pouco melhor um período da fotografia portuguesa, muito dominado pela estética dos Salões e concursos, que quase não deixa