
Uma horta no meio da cidade? Porque não? Pode parecer estranho, quando apenas condescendemos num modesto jardim no meio da imensa floresta de prédios. Mas a verdade é que continua a fazer todo o sentido uma horta no meio da cidade, já que constitui um meio de preservação do solo enquanto elemento vivo, é fonte de rendimento, é uma forma de ocupação dos tempos livres, é um espaço de sociabilidade criando laços de vizinhança e de entreajuda e é, ao mesmo tempo, uma forma de humanização do tecido urbano.
Vem isto a propósito da exposição Do hotel às hortas: caminhos de crise e identidade que Ângela Ferreira apresenta do Museu do Neorealismo, em Vila Franca de Xira. A exposição começa no átrio do Museu com Hotel da Praia Grande, em grande formato, coerente com uma estética moderna que, segundo a apresentação que nos é feita, traduz simultaneamente uma imagem clara e enigmática, reunindo numa só imagem duas encenações originárias de épocas distintas. Na sala do rés-do-chão Ângela Ferreira apresenta-nos as hortas enquanto espaços sobreviventes de uma cultura rural na vida das cidades, espaços não poucas vezes ilegais ou tolerados na ordem do caos citadino, lugares de passagem que o catálogo chama muito acertadamente de não-lugares. O olhar moderno e comprometido da fotógrafa leva-nos a olhar para uma realidade escondida (e humana) das nossas cidades.
A artista, que representou Portugal na Bienal de Veneza, em 2007, coloca-nos com este trabalho perante a questão do espaço e do tempo, desconstruindo significados que a vida agitada da cidade nos leva a aceitar acríticamente. As imagens, bem impressas e bem distribuídas na sala, fazem-nos pensar. Que melhor objectivo haveria para uma exposição de fotografia, enquanto forma de expressão de um artista?
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